O Sítio da Mente

Pensamento, Emoção e Vontade no Cérebro Humano

Henrique Schützer Del Nero (1997, 510 páginas, R$ 40,00)




 
 
 
 

  O Sitio da Mente: Pensamento, Emoção e Vontade no Cérebro Humano

autor: Henrique Schützer Del Nero
 
 

Este livro trata de maneira ampla do fenômeno de surgimento da mente, especificamente da consciência, no cérebro humano. A mente é uma propriedade do cérebro em funcionamento. Entre as funções que é capaz de desempenhar estão o pensamento, particularmente o pensamento inteligente, a linguagem, a memória, as emoções e a vontade. Embora não se explique a totalidade da mente através do exame do cérebro, e também não se explique a totalidade da interação social através do exame da mente individual, há um nítido elemento de continuidade entre o cérebro humano, a mente e a sociedade. Cérebros forjam mentes que interagem através de símbolos constituindo sociedade e cultura. Essa continuidade de níveis é fundamental para que entendamos os limites e potenciais da ação humana.

Compara-se o cérebro humano ao computador, celebrado através do confronto entre o campeão mundial de xadrez Kasparov e o supercomputador Deep Blue. A comparação padece de alguns enganos, embora seja saudável na medida em que coloca a inteligência como uma propriedade de qualquer sistema que manipule determinados símbolos e regras, não precisando para isso ter uma alma, nem qualquer sopro divino a inspirar-lhe a razão.

A precariedade da comparação entre cérebro e computador, pelo menos se entendermos computador como aparato digital, é que o cérebro humano não opera em padrão digital, mas sim em padrão analógico. Isso quer dizer que o diálogo entre bilhões de células cerebrais - neurônios - se dá através de inúmeras faixas de contato e não apenas de duas (sim ou não, 0 ou 1) como ocorre nas máquinas digitais. Esse processamento analógico do cérebro humano possibilita, ao lado da capacidade de comunicação, que se façam coisas ainda não realizáveis pelos computadores, tais como entender metáforas, decidir em cenários complexos e, sobretudo, ser capaz de justificar os atos através de um discurso sobre a ação. Se o cérebro humano é mais lento que o computador digital, também processa uma gama de estados não encapsulados pela lógica rígida do sim ou não (digital). Todas as situações que realmente nos distinguem enquanto humanos envolvem graus variados de incerteza, ausência de regra clara para a solução e, portanto, embora mais lenta, uma lógica analógica para enfrentar cenários complexos e regiões de interface de disciplinas e de conhecimento, situações dificilmente solucionáveis pelo digital estrito.

A primeira parte do livro mostra como o cérebro é constituído de neurônios que dialogam através de freqüências de disparo, tal fossem duas estações de rádio que operam em determinadas freqüências, sintonizando de quando em quando.

A lógica de forja da mente advém da capacidade dinâmica de se reagruparem módulos de processamento. Não procure a mente no local x ou y determinado do cérebro humano. Para as funções mentais, o que importa é a reunião em comissões que podem utilizar diferentes pontos para deliberar. Embora possa estar em qualquer parte do cérebro, a mente não está em lugar algum, bastando para entender-lhe a razão que se tenha em mente que a regra de convocação de uma comissão é mais importante que seus membros e que o local onde se reúnem.

Preparando as fôrmas cerebrais, podemos entender como as funções e os conteúdos mentais ali se encaixam. Claro, não há nem cérebro e nem mente, mas apenas diferentes planos de descrição dos fenômenos, descritos numa linguagem de tipo cerebral ou de tipo mental. Quando falo de uma emoção como a raiva ou quando falo da atividade elétrica na região x cerebral, estou falando de eventuais mesmos objetos, descritos por linguagens diversas e, portanto, com significados diferentes. A grande celeuma da mente está em que mente e cérebro são um mesmo objeto, porém com linguagens de descrição que varrem significados não traduzíveis entre si.

As funções mentais são, então, divididas em módulos como o pensamento, a emoção e a vontade. O pensamento porque o cerne da inteligência, do raciocínio e da reflexão; também arena onde se dão as experiências contrafactuais, o devaneio, o plano, a imaginação e as hipóteses. A emoção, porque o que colore e resignifica o plano da razão, por vezes adulterando-lhe o curso, como ocorre em tanta disfunção mental. Sim, disfunção, porque o exame das condições mentais se dá amparado pelo escrutínio de quadros psiquiátricos, comuns e leves como uma depressão ou ansiedade, graves e complexos como uma psicose.

A vontade, talvez o grande fulcro da reflexão sobre a natureza divina do ser humano, encontra neste livro uma explicação plausível. Se a consciência é o palco onde se dá a cena da vida, a vontade é a corroboração ou inibição dos planos que sejam incompatíveis com determinadas normas e valores. Sucintamente, a consciência e a vontade surgem não para processar o óbvio e trivial, mas para resolver os impasses que a complexidade cerebral infraconsciente não é capaz de resolver. O aprendizado e os valores desempenham papel fundamental na forja da mente. São as condições para que, se o cérebro é complexo, a mente se invista da função de valorar e discernir sobre aquilo que o processamnto infraconsciente é incapaz de decidir. A mente é sobretudo o resultado de uma operação cerebral de valoração da ação e da percepção cerebrais. É um discurso valorado sobre a ação possível e complexa cerebral. Ora, valorar é inserir no reino das afecções naturais, do pathos natural cerebral, um ethos biológico, devidamente informado pela cultura e pela linguagem.

Esse ethos é o que justifica a reflexão da parte final do livro. A mente está sitiada quando não percebe que pode adoecer, tanto individualmente nas patologias mentais, como também numa forma de "patologia coletiva" em que a função de ethos da mente está cada vez mais esquecida. Valorar a ação e a percepção significa visitar a função mental na sua razão biológica fundante. A mente nasceu para encetar a comunicação, possibilitando a construção de uma sociedade forte. Os tempos atuais sitiam a mente porque a cultura se esforça por ressaltar a mente como aparato de sucesso pessoal. Ora, seremos bem-sucedidos quando deixarmos de dormir tranqüilos com 1/3 da humanidade, nossa irmã biológica, dormindo ao relento. O desemprego, a tecnologia sem ciência, a perda dos valores morais e de uma ética de responsabilidade perante o semelhante são fenômenos de uma mente coletiva que adoece e precisa refletir sobre a biologia que a selecionou. Basta de auto-ajuda e de esoterismos, proclama o livro. É tempo de hetero-ajuda e de preocupação com o "reino deste mundo" na feliz expressão de Alejo Carpentier. Somente poderemos vingar como espécie se entendermos, como se propõe enfaticamente no livro, que uma ciência da mente deve examinar-lhe todas as ocorrências - a humana, a biológica e a físico-matemático-computacional. Também, e sobretudo, somente vingaremos ao reconhecer que a dinâmica do corpo cria a variação e que a dinâmica da ética e do valor perante o semelhante é que criam a justificação, o valor e a consciência. Olhando para o próprio umbigo, sem refletir sobre o que é a mente, o cérebro e a cultura, de nada adiantará consumir qualquer conhecimento ou pseudo-conhecimento. Estaremos sob o risco de nos perdermos todos pelo descaso com o semelhante, miserável ou só engenheiro desempregado, que agora chora no ombro do parente abonado ou assalta no farol de trânsito, rancoroso tanta a injustiça que seu estudo e seu corpo animal estão a merecer.
 
 






SUMÁRIO

PREFÁCIO E GUIA DE LEITURA p. 11

INTRODUÇÃO p. 17

Parte I: FÔRMA CEREBRAL

1. CÉREBROS p. 27

2. NEURÔNIOS p. 35

Integração e decisão.

3. SINAPSE p. 45

Receptores. Mensageiros. Sinapses alteradas e tratamento das disfunções mentais. Alterações específicas de passagem de informação na sinapse.

4. DEPARTAMENTOS CONCRETOS E VIRTUAIS p. 59

Departamentos virtuais e comissões que examinam situações ambíguas. A mente como departamento virtual. Divisórias e compartimentos. Mais divisões nos departamentos concretos. Os grandes departamentos cerebrais. A integração de departamentos concretos e o lento surgimento da mente. Inteligência e formação dinâmica de comitês.

5. CIRCUITOS E SISTEMAS p. 79

6. CÓDIGOS E OSCILAÇÕES p. 83

Neurônios e codificação. Neurônios artificiais e conectivos lógicos. Processamento temporal. O neurônio e a codificação temporal.

7. ORIGEM DE CÓDIGOS E TELAS p. 97

Mente e computador: uma analogia. Sobre a origem das convenções que possibilitam sincronismo.

8. SINCRONISMO E FUNÇÃO VIRTUAL p. 109

Parte II: FORMA E CONTEÚDO MENTAL

9. FUNÇÕES MENTAIS p. 119

Subdivisão de funções.

10. CONSCIÊNCIA p. 125

Inconsciente. Freud e o inconsciente. Consciência e evolução. Consciência e linguagem.

Consciência: vontade, liberdade e moral. Consciência e terceirização. A consciência e a universalidade dos processos abstratos e virtuais. Consciência e crença. Consciência: supraconsciência e infraconsciência. Consciência e máquinas.

11. CIÊNCIA COGNITIVA E A NOVA MENTE p. 155

A crise na concepção discreto-digital da mente. A crise da visão da mente como pensamento. A crise das regras. A crise dos símbolos. Símbolos arbitrários e dinâmicos. Símbolos e proposições. Símbolos e intencionalidade. A dinâmica cerebral e a relação entre símbolos e sinais. Investigação de objetos e relações cerebrais. A crise da completude e a dinâmica cerebral quântica. Acaso genuíno ou provisório? Sistemas e modelos híbridos. Outros hibridismos. Sistemas dinâmicos, bifurcações e osciladores. Um modelo de dinâmica cerebral clássica baseado em malhas de sincronismo.

Parte III: A MENTE ALTERADA

12. DISFUNÇÃO MENTAL p. 207

Opinião e conhecimento.

13. A MENTE ADOECE p. 223

Sono. Motivação. Concentração. Memória. Apetite. Fadiga. Libido. Sintomas físicos. Pensamento. Percepção. Irritabilidade e impulsividade.

14. O PENSAMENTO E SEUS DISTÚRBIOS p. 229

Psicoses.

15. A EMOÇÃO E SEUS DISTÚRBIOS p. 249

Linguagem e estabilização de significados. Lesão e disfunção. O pensamento poderia ser um meio de redescrever as emoções e a vontade? Formação dinâmica de níveis da vida mental. Desregulagem emocional, afetiva e do humor. Depressões. Transtornos irritáveis e impulsivos. Depressões psicóticas. Depressões leves crônicas. Mania. Ansiedade, pânico, fobia e obsessões.

16. PATOLOGIAS DA VONTADE p. 283

Parte IV: A MENTE ORGANIZADA

17. ATENÇÃO p. 295

O sentido extra que corrobora discursos hipotéticos. Patologias da atenção. Atenção e reflexão.

18. LINGUAGEM p. 307

De novo as proposições. Afasias. Dislexia.

19. PERCEPÇÃO E AÇÃO p. 321

Percepção, ação e consciência. Anomalias da percepção e da motricidade.

20. MEMÓRIA p. 341

Memória e traço. Outras classificações para tipos de memória. Memória e código; memória e interpretação.

21. PERSONALIDADE p. 355

Personalidade e herança. Classificando personalidades. Psicopatia. Personalidade social e axioma coletivo.

22. O SONHO COMO FUNÇÃO p. 377

Hermenêutica e psicoterapia.

23. CONSCIÊNCIA: CONTEÚDO, VIVÊNCIA E FUNÇÃO p. 387

Parte V: A MENTE SITIADA

24. SUCESSO, EXCLUSÃO E SOBREVIVÊNCIA p. 397

A ciência e a satisfação do consumidor.

25. MERCADO, PODER CENTRAL E CÉREBRO HUMANO p. 409

Auto-organização e pathos; heterorganização e ethos. Estabilidade e funcionalidade.

26. QUANDO A CULTURA SITIA A MENTE p. 421

Imputabilidade e culpa. Base neuronal para a vontade. Sujeito público e privado. O lugar da ética.

27. A MENTE EDUCADA p. 439

Computadores e Internet. Drogas. Alquimias mentirosas: a auto-ajuda e os novos métodos gerenciais. Histeria e costumes.

CONCLUSÃO p. 453

NOTAS p. 455

BIBLIOGRAFIA p. 483

ÍNDICE REMISSIVO p. 487

SÍNTESE DOS CAPÍTULOS

Cap.1 Cérebros

SÍNTESE

Cérebros são constituídos de bilhões de neurônios e trilhões de conexões (sinapses) entre eles. Embora em grande parte da escala animal já se encontrem sistemas nervosos, o acréscimo de células é capaz de gerar saltos no comportamento do sistema. Isso ocorre quando aquecemos água fervendo. Um grau a mais é capaz de fazê-la evaporar. A transição da água líquida para vapor é semelhante ao que ocorreu ao se acrescentar neurônios a um cérebro. Quando se chegou a uma certa quantidade deles, surgiu a mente.

Cérebros são todos complexos; porém, no organismo mais simples, a uma dada situação costuma corresponder uma única reação: fugir ou lutar. No ser humano, costumam-se engendrar diferentes ações diante do perigo. Essa característica não é pré-gravada e depende de complicadas operações de intermediação entre os sentidos e a motri-cidade. Quando essa integração é muito complexa, surge o pro-cessamento mental como um tipo especial de processamento cerebral.

Cérebros são regiões especiais de sistemas nervosos. Não estão presentes em qualquer animal inferior. Representam a diferenciação e crescimento de uma porção do sistema nervoso. No ser humano, por exemplo, distinguimos um sistema nervoso central constituído basicamente pelo cérebro e outro, periférico, constituído por nervos espalhados pelo corpo.

Cap. 2 Neurônios

SÍNTESE

Os neurônios têm três estruturas básicas: os dendritos, por onde chega a informação; o corpo celular, onde a informação é integrada; e o axônio, por onde a decisão é despachada.

A informação no cérebro não é feita de imagens, palavras e emoções. Toda ela é codificada sob a forma de correntes elétricas, que variam de local, tamanho e forma quando chegam às sinapses. No corpo celular há uma reunião entre essas correntes para discutir e chegar a uma deliberação final, que deve ultrapassar uma barreira (limiar) existente no início do neurônio. Se ultrapassar, gerará uma nova corrente (potencial de ação).

Enquanto as correntes nos dendritos (potenciais locais) são variá-veis, o potencial de ação é só de dois tipos: presente ou ausente. A característica de admitir apenas dois estados possíveis é chamada de digital; a de admitir múltiplos estados possíveis, de analógica.

Olhar para o neurônio como uma unidade que integra diferentes informações analógicas vindas dos dendritos, gerando uma resposta digital, é erro comum na história do estudo da mente. O neurônio, bem como o cérebro, não é um aparato digital. Se o potencial de ação isoladamente parece codificar sob a forma digital, a quantidade de potenciais de ação, tal qual um código de barras, usa o intervalo entre os potenciais para contar muito mais que o digital.

Cap. 3 Sinapse

SÍNTESE

Como há uma descontinuidade física entre o axônio de um neurônio e o dendrito do próximo (sinapse), para que se estabeleça a comunicação entre ambos, a informação ? sob a forma de corrente elétrica, potencial de ação (no primeiro) e potencial local (no segundo) ? deve sofrer uma tradução química, ultrapassando esse intervalo. Contratam-se para isso mensageiros químicos (neurotransmissores) que, saindo do neurônio 1, carregam a mensagem para o neurônio 2. Ali, conectam-se a receptores num mecanismo de encaixe do tipo chave-fechadura. Esse encaixe induz a abertura de canais de parede no neurônio 2, por onde se dá a troca de cargas elétricas, gerando a corrente que recria a informação do neurônio 1.

O processo de passagem pela sinapse envolve a transformação de informação sob a forma de corrente (potencial de ação) em informação sob a forma de mensageiro químico (neurotransmissor). A fideli-dade da transmissão depende da ligação do neurotransmissor com os receptores do neurônio seguinte. Quanto melhor a conexão, mais fiel a ligação. Feita a ligação do neurotransmissor com o receptor, inicia-se um processo dentro do neurônio 2. Substâncias internas (mensageiros) vão agora operar a abertura de canais para a troca de íons e geração de corrente (potencial local), e também influenciar partes dos genes daquele neurônio, responsáveis pela produção (forma e quantidade) de receptores. Com isso, podem-se obter, no futuro, mudanças na conexão de modo que os encaixes fiquem cada vez mais perfeitos. Essa é uma das bases do aprendizado e de uma série de reforços compor-tamentais. Nesses dois níveis ? receptor sináptico e mensageiro ? estão dois pontos cruciais onde atuam as drogas que tratam as disfunções mentais.

Cap. 4 Departamentos concretos e virtuais

SÍNTESE

A grande dificuldade de compreensão da mente e de seu sítio cerebral advém de uma peculiaridade de processamento: enquanto problemas claros, e previamente conhecidos, tendem a ter departamentos rígidos para sua solução, problemas novos tendem a requerer improvisação, inteligência e hesitação.

Não cabe criar departamentos concretos para problemas complexos que requerem o "talvez" como resposta. A mente lida basicamente com situações novas e que exigem aprendizado. Em lugar de dar respostas rápidas e precisas, baseadas na lógica digital do sim ou não, tende a avaliar cenários complexos em que a dinâmica analógica do talvez espelha melhor seu parecer.

O neurônio está habilitado a dar respostas digitais através do ca-ráter sim ou não do potencial de ação. Também está apto a dar respos-tas analógicas através da freqüência dos potenciais. Assim, para certos fins, temos departamentos concretos processando rotinas bem conhecidas. Para problemas complexos, temos a reorganização de departamentos concretos em comissões que podem usar o talvez como resposta.

Procurar a mente em regiões específicas do cérebro é estéril porque sua lógica de aparecimento está calcada no recrutamento dinâmico de unidades que processam o talvez em comissões virtuais. Virtual aqui não significa imaterial ou evanescente, e sim dinâmica calcada no processo e estilo analógico de reunião (via código de barras), não necessariamente em local específico e com membros vitalícios. Cuidado, portanto, com afirmações de que esta ou aquela função mental está localizada num ou noutro ponto do cérebro.

A inteligência, principal atributo da mente humana, é construção contínua de rotas em locais em que não há caminho único e imutável. Como numa corrida no deserto, o que é certo agora pode não ser dentro de instantes. Em lugar de casuísmo ou indeterminação, a regra dinâmica de seleção de membros em comitês é o que propicia respostas adequadas para cada situação. O piloto inteligente sabe que não é fazer sempre o mesmo trajeto que o impede de atolar. Ao contrário, na maioria das vezes, cria caminhos novos a partir do contexto, atolando poucas vezes e repetindo o truque de condução, não a rota.

Cap. 5 Circuitos e sistemas

SÍNTESE

A noção de circuito e sistema é fundamental para entender propriedades cerebrais e mentais. Se algumas propriedades surgem de uma parte, seu arranjo em sistemas pode fazer surgir novas e diferentes propriedades. Chama-se isso de emergência.

Cérebros são sistemas que realizam funções diversas, de acordo com a ótica sob a qual são examinados. O arranjo digital determina certas propriedades. O analógico propicia o surgimento de novos arranjos das partes, de modo que as fôrmas nas quais se depositarão as funções mentais estejam prontas.

Um circuito especifica em sua arquitetura arranjos funcionais dinâmicos; no arranjo físico das partes se encontram as coações aos diferentes modos e finalidades de funcionamento. Uma estrutura de vigas e pilares de um prédio jamais poderá ser uma ponte.

Cap. 6 Códigos e oscilações

SÍNTESE

Quando se estuda o cérebro e sua relação com a mente, o grande desafio é desvendar o código que os neurônios utilizam para representar objetos e relações entre objetos.

A concepção digital nos fornece duas maneiras de entender a codificação: a primeira associa um neurônio a um objeto; a segunda associa conjuntos de neurônios (três ou quatro) a conectivos lógicos.

As redes neurais foram uma tentativa de romper a barreira da concepção de mente baseada em regras lógicas. Não eram capazes, inicialmente, de instanciar o conectivo lógico "ou exclusivo". Foram desacreditadas como modelo até que, com o recurso do neurônio extra ??da camada oculta ?, passaram a resolver os problemas de separabilidade linear.

As redes neurais seriam, então, capazes de instanciar todos os conectivos, sem precisar com isso pagar o preço de separar o programa do nível físico, como veremos mais adiante. Porém, a codificação temporal genuína não seria nem uma nem outra. Lançando mão de conjuntos de potenciais de ação, faria do analógico a fonte temporal de representação.

O neurônio constituiria a base da instanciação do digital simples (objetos), do digital lógico (sentenças e conexão lógica entre elas) e ainda de uma terceira via de codificação: o código de barras.

Temos, então, dois códigos: o digital e o analógico. O primeiro codifica objetos e conexões lógicas entre eles. O segundo extrai da variação do intervalo temporal entre os potenciais uma nova fonte de codificação.

Cap. 7 Origem de códigos e telas

SÍNTESE

A mente pode ser vista de diferentes maneiras: como conteúdo, parece-se com o mundo; como processo que se desenvolve através do recrutamento dinâmico de comitês via sincronização, é totalmente estranha. Para uma série de atuações, basta que a consideremos uma tela de computador e a utilizemos com as ferramentas intuitivas. Esta é, porém, apenas sua aparência, que resulta de um processo de codificação que está por trás dela e do qual participam o cérebro e os códigos. O cérebro prepara as fôrmas onde se encaixam as funções e conteúdos mentais. A história evolutiva da espécie humana garante que haja estabilidade e norma no encaixe das formas e conteúdos fornecidos pela cultura e introjetados para a mente nas fôrmas preparadas pelo cérebro.

Quando a mente pergunta pelo seus limites, a resposta não está na tela, como querem visionários e enganadores. Está no órgão responsável pelo processo de execução de fôrmas e na história que garante uniformidade àquilo que os códigos têm de dinâmico e arbitrário.

Uma boa forma de entender o quanto há de lei física, de arranjo funcional e de estipulação arbitrária no processamento cérebro-mental é pensar no caso das telecomunicações. Para que um documento trafegue por satélites, cabos de comunicação, estabelecendo comunicação entre dois simples caixas-eletrônicos existem diferentes níveis de operação.

Existe um nível físico do caixa-eletrônico enquanto máquina; existe uma operação de transformação de seus comandos em uma tela fácil de ser compreendida (normalmente até conversam com o cliente pedindo que aperte essa ou aquela tecla); existe uma transformação das operações do nível físico em sinais de comunicação que vão estabelecer contato com outro caixa-eletrônico. Nessa operação de comunicação pode haver níveis de sincronização de tempo para que as duas mensagens, em dois locais diferentes do mundo possam ser cotejadas e conferidas, níveis de operação em rede, níveis de realização de máquinas virtuais, níveis de enlace, etc. Há uma série de passos para que se estabeleça a relação de comunicação entre dois caixas-eletrônicos. Algumas são físicas propriamente ditas, outras são programas com suas leis próprias, outras são estipulações convencionais que permitem a comunicação entre dois aparatos físicos. A estabilização de convenções comunicativas ao longo da história da espécie humana (filogênese) e durante o desenvolvimento de cada indivíduo até a maturação de seu cérebro e mente (ontogênese) depende de um aparato físico especial, que é o cérebro; de um arranjo estável de formação de comitês, que são as funções mentais; de um arranjo particular de comitês específicos de cada um de nós, que são as vivências individuais, gravadas na nossa experiência biográfica; de um arranjo estável num nível superior através dos valores médios da sociedade em que vivemos e, finalmente, de uma convenção oculta que está depositada na história da espécie humana através de milhares de anos que permite garantir que a representação interna de cada fato mental é quase-equivalente ao uso de uma expressão da linguagem que o comunica para os outros seres humanos.6

Cap. 8 Sincronismo e função virtual

SÍNTESE

Na primeira parte deste livro, examinamos as condições para que o cérebro reorganize seus módulos concretos, criando, através de códigos analógicos, fôrmas onde se depositarão as formas e os conteúdos mentais. Essas formas e conteúdos são em grande parte herança da cultura e da linguagem. Tornaram-se possíveis pela ação contínua de cérebros sobre o meio e deste sobre eles.

Definindo-se codificações, pode-se optar pelo digital, de forte apelo lógico. Isso possibilitará fazer interessantes programas computacionais mas que em nada ? na minha opinião ? estarão simulando a mente. Como a forma mental que adotarei na próxima parte está fortemente calcada na consciência e como parece estar bastante ligada ao processo de sincronização entre populações neurais, acredito que uma codificação analógica no plano das freqüências de disparo de potenciais capta a transformação do cérebro físico em mente virtual.

Algumas das implicações fundamentais desse processo são:

a) essa mente é forma e conteúdo que se encaixa nas fôrmas preparadas pelo cérebro;

b) como no exemplo das várias televisões, a mente é um modo de agrupar partes para que a interpretação do processo resultante pareça una, embora a tela grande seja apenas uma abstração;

c) como a mente se serve de um componente físico de sincronização para preparar as fôrmas do mental, cabe descobrir que formas e conteúdos devem preenchê-las;

d) descobertas as fôrmas, as formas e os conteúdos, as leis de ligação entre fôrmas e as leis de ligação entre formas, estaremos habilitados, desde que garantida a estabilidade no uso de convenções, fortemente calcada na história evolutiva do ser humano, a construir máquinas que tenham mente e interajam em sociedades como a nossa;

e) provisoriamente, temos condições de forjar uma ciência robus-ta da disfunção mental, o que nos permitirá unificar dois processos terapêuticos situados em planos diversos: a psicoterapia e a psico-farmacologia.

Cap. 9 Funções mentais

SÍNTESE

A mente surge de um estilo mental de processamento. Presume-se que a sincronização de módulos pela freqüência crie átomos de consciência. Átomos de consciência, manipulados pela vontade e pela linguagem, podem agir sobre o mundo, criando e recepcionando partes "mentais" da cultura (soma de produtos de outras mentes ao longo da história).

Mente, nesse sentido, é igual a consciência (ou aquilo que pode se tornar consciente). Entre as várias modalidades da mente (funções mentais), distinguimos: atenção, percepção, memória, vontade, pensamento, afetos ou emoções, personalidade, motricidade, linguagem, juízo e sonhos.

Assim, a mente surge de um estilo cerebral de processamento (do digital vamos para o analógico). Isso suporta inicialmente a formação de módulos de consciência (por sintonização de padrões) e posteriormente enseja a formação da linguagem, da vontade (através das quais se opera sobre o mundo e se forja a cultura), da memória, da percepção, do pensamento, dos afetos, da personalidade e do juízo.

Dizer que a consciência está por trás da concepção de mente significa que:

a) a mente surge pelo estilo de computação via sintonização (o que, na verdade, parece estar certo para o caso da consciência);

b) as funções acima expostas são departamentos da consciência, ou podem vir a ser, de modo que, ou se tem uma vontade consciente, ou, quando se trata de uma "vontade não consciente", se é capaz de, pelo pensamento e pela linguagem, percebê-la na consciência (esclareceremos este ponto mais adiante).

Deve-se distinguir a mente-processo, a mente-função e a mente-conteúdo. A mente-processo, enquanto consciência como suporte, surge graças ao processamento analógico. Sua função parece estar ligada ao processamento de contextos opacos e de decisão ambígua. Seus conteúdos são os objetos que povoam nossa introspecção.

Cap. 10 Consciência

SÍNTESE

A consciência é o grande atributo da mente. Entre suas características devem-se distinguir o processo que a engendra, a vivência de conteúdos e sua função evolutiva.

Se o processo parece ser a progressiva virtualização dos departamentos cerebrais através de códigos analógicos, oscilações e sin-cronismo, o conteúdo é fortemente moldado pela linguagem e pelas categorias de senso comum. Sua função biológica pode, pelo concurso da vontade e da liberdade, redescrever ações e percepções de maneira a conferir-lhes estatuto de responsabilidade.

A unidade da experiência consciente pode ser perfeitamente explicada pela defasagem temporal dos módulos de processamento. Como num filme, em que a velocidade de apresentação dos fotogramas cria a ilusão de movimento, a unidade do eu e da vivência pode dever-se às janelas de tempo que unificam porções multifacetadas da vida mental. Pode ser, enquanto processo de codificação, base de uma forma privada e outra pública, de uma natural e de outra cultural. Haveria assim um processo mental na relação do sujeito com os fatos culturais. A inteligibilidade da cultura, bem como a base de conhecimento extracerebral situado nas bibliotecas, costumes, moral, permite que se entenda que, se a mente por ora é privilégio do cérebro, desvendado seu código e seu processo, poderá ser replicada em máquinas.

A distinção entre consciência enquanto objeto psicológico concreto e enquanto processo abstrato que a engendra permite que se reinstaure o ideal científico do conceito puro. Enquanto objeto, é cerebral até o momento. Enquanto processo, interpenetra com seus códigos o mundo da cultura, forja o ser público e pode ser estudada como fenômeno natural e processo formal.

Uma ciência da mente será computacional, stricto e lato sensu, e também será uma ciência da consciência. Essa é a ciência cognitiva ou as ciências cognitivas, visto que são muitos os seus paradigmas, entre eles o que apresento neste livro.

Cap. 11 Ciência Cognitiva e a nova mente

SÍNTESE

A ciência cognitiva é a grande teoria da mente deste final de século. Projeto interdisciplinar, surge como reação ao behaviorismo. Resgatando a noção de mente, estipula inicialmente que o pensamento inteligente deve ser o cerne da vida mental. Pensar seria, assim, manipular representações ? símbolos através de regras lógicas. A mente se confunde com um programa de computador, enquanto o cérebro se confunde com suas partes físicas (placa). Esse modo de modelar a mente é chamado de inteligência artificial simbólica (IAS) e procura as regras que relacionam os objetos mentais.

Como essas regras não dão conta das relações e como há forte aspecto de aprendizado e de detecção de padrões no comportamento humano, surgem modelos rivais que, em lugar de relações baseadas em regras, computam regularidades. Para isso, utilizam-se de arquiteturas de neurônios artificiais que, pelas múltiplas conexões e pelo ajuste de peso entre elas, podem ser treinadas para desempenhar funções interessantes. São as redes neurais ou inteligência artificial conexionista (IAC).

Embora grande parte dos modelos em ciência cognitiva se enquadre em um dos dois tipos acima, a noção de símbolo que usam é fortemente mental. Os vários sentidos de símbolo enquanto objetos mentais suscitam confusão na leitura de qualquer texto e na compreensão de modelos. Símbolos podem ser entendidos como: a) representantes; b) blocos dinâmicos que mudam com o aprendizado; c) proposições (ou sentenças bem construídas); d) intencionalidade (capacidade de manipular objetos com modos mentais diversos, tais como crença, temor, desejo, etc.).

Tantos significados devem mostrar que manter símbolos como objetos que são manipulados por regras (IAS) ou por regularidades (IAC) não resolve, senão parcialmente, o problema da relação entre cérebro e mente. Por haver uma nítida relação entre símbolos e processamento discreto-digital e por termos elegido a consciência como palco da vida mental (consciência que parece surgir através da sincronização de populações neurais), lançamos uma nova classe de modelos. Neles, genericamente chamados de cerebralistas, procuramos trazer tanto objetos quanto relações para o plano neural.

Os símbolos seriam, então, oscilações e as relações, sincronização entre elas (no caso da versão clássica). O impasse da concepção discreto-digital seria desfeito pela concepção analógica de populações de neurônios. Porém, a dinâmica cerebral que propomos, baseada em oscilações e sincronismo, deve ser chamada de clássica, por utilizar ferramentas de física clássica. Há modelos de dinâmica cerebral quântica que surgem de uma complicada tentativa de superar o problema da parada e da incompletude em sistemas digitais. A consciência seria não-algorítmica e sua base física seriam fenômenos quânticos no nível de microtúbulos cerebrais.

Além dos dois grandes blocos de modelos simbolistas (IAS e IAC) e cerebralistas (DCC e DCQ), há ainda alguns outros hibridismos de que se lança mão na tentativa de modelar a mente. O mais comum é associar IAS e IAC. Outros hibridismos são citados por representarem tentativas de associar várias áreas de conhecimento no afã de modelar cérebro e mente.

O enfoque deste livro é a dinâmica cerebral clássica. A análise do sinal elétrico que gera o símbolo carece de ferramentas matemáticas. Elegemos a teoria de bifurcações e caos como a principal, por seu compromisso estrutural com o determinismo. O acaso poderá ser provisório, nunca absoluto. Há ordem por trás do aparentemente desordenado.

Nas próximas partes veremos que são dois os objetivos por trás dessa escolha: investigar as bases de uma psiquiatria de molde científico e investigar a natureza de certos comportamentos que, embora possíveis, são eticamente danosos à espécie humana. Uma teoria determinista da mente e de sua relação com o cérebro pode nos fornecer alicerce para atingir esses dois objetivos.

Cap. 12 Disfunção mental

SÍNTESE

O problema da disfunção mental, antes de assunto para médicos, é subproduto imediato de qualquer teoria da mente. Toda vez que fornecemos a alguém os corretos instrumentos de conhecimento suas decisões tendem a ser racionais e criativas. Não basta listar sinais e sin-tomas num panfleto que se distribui de porta em porta. Não percebendo a natureza diversa dos discursos, o leigo pensará que o boletim da Organização Mundial da Saúde tem o mesmo peso do folder colorido distribuído pela vidente da esquina.

A especificidade das funções mentais, e portanto das anomalias mais ou menos específicas, levou-me a optar por mostrar uma série delas acompanhadas de disfunções potenciais. Além de ressaltar a praticidade de idéias que pareceriam filosóficas ou científicas, exem-plifica-se, com o cenário cotidiano, a plêiade de quadros com que podemos nos deparar. Por sorte, dada a natureza da forja do mental, é relativamente fácil corrigir essas disfunções; por azar, situado no plano da ignorância e do preconceito, muita vez elas não são diagnosticadas precocemente ou jamais se aceita tratá-las.

Entender a articulação entre o cérebro e a mente permite que se enxerguem as possibilidades de se agir por opinião ou de se recrutar parecer técnico. Sabe-se que a opinião pode ser dada quando não vai de encontro a uma mente alterada, nem entra em choque com teorias científicas que prescrevem o oposto. Grande parte das ilusões que se vendem hoje em dia sob o rótulo de tratamentos para a mente encontra ouvidos porque não se educam e instruem as pessoas com uma teoria séria da vida mental, condizente com o estágio atual do conhecimento científico acerca do cérebro.

Não há nenhuma intenção de exercer uma tirania do conhecimento, desdenhando da ordem das coisas que são temática de opinião ou de fé. Porém, preservar o direito irrestrito de opinião não significa aceitar a tirania da ignorância, nem tampouco aceitar que se vendam por aí idéias falsas, ou simplesmente truísmos, sob a aura de ciência. Opinião é uma coisa, conhecimento é outra. Deve estar claro que uma ciência da mente, de sua função e desvio, requer bem mais que o saber ingênuo que se apregoa em muitos púlpitos, escolas, empresas e locais de trabalho.

CAP. 13 A MENTE ADOECE

SíNTESE

Apresentamos uma lista de sinais e sintomas que indicam mau funcionamento mental. São, de alguma maneira, exclusivos do cérebro humano. Isto é, numa teoria geral da mente, abstrata e implantável tanto em cérebros como em máquinas, as desregulagens não necessaria-mente apareceriam nas últimas. Trata-se de peculiaridades da mente no sistema cérebro humano. Não têm grande valor quando tomadas isoladamente; porém, quando agrupadas e com duração de algumas semanas, apontam quase certamente para patologias mentais.

Nos próximos capítulos, que abordam funções e disfunções, serão enfocados alguns eixos básicos da psiquiatria que podem auxiliar na obtenção daquilo que dissemos ser uma pista de que a mente não está de posse de todos os seus instrumentos de ação.

Cap. 14 O pensamento e seus distúrbios

SÍNTESE

O pensamento, particularmente o inteligente, é o principal foco da modelagem mental. Porém, se apresenta nítida nobreza em relação às outras funções, constitui também o processo mais aceito como realizável por uma máquina. "Pensar, até admito que um computador possa, mas sentir, jamais", dizem-me freqüentemente.

Há uma série de anomalias do pensamento, aí incluídas a crítica e o juízo, genericamente chamadas de psicoses. Podem ser primárias, quando é o pensamento a função afetada, ou secundárias, isto é, decorrentes de um sem-número de outros distúrbios primários mentais e também intra (tumores, por exemplo) ou extracerebrais (infecções, por exemplo).

Aquilo que brota na consciência é apenas uma parcela do processo racional, uma vez que inúmeras funções são executadas abaixo da percepção consciente. No entanto, por algumas razões, há aparições espontâneas de intuições, cenas e idéias que, se não forem entendidas como transições de fase num sistema complexo, podem parecer pre-monições ou sinais de alerta. Ansiosos e deprimidos apresentam essa tendência.

Também o fato de se inculcar culpa em alguém que pensa coisas más é estranho ao funcionamento cerebral. Ninguém é culpado de pensar, porque o cérebro examina todas as hipóteses interligadas a um conceito. Por vezes, parte desse processo, sob a forma de idéia, ou todo ele, sob a forma de pensamento completo, emergem na consciência, o que não significa, necessariamente, motivação oculta ou desejo reprimido.

Para uma operação de cálculo matemático não parece haver dependência extrema entre fatores emocionais e volitivos. Nessa situação, o departamento virtual pensamento (cognitivo) recruta quase que somente funcionários de departamentos concretos mais especializados em pensar. Porém, na decisão complexa e na elaboração de cenários, sejam otimistas ou pessimistas, ocorre forte entrecruzamento de pensamento, emoção e vontade. Embora se possa exagerar no papel da emoção na modulação do pensamento, e é o que fazem certas idéias vendidas hoje em dia, vários casos psiquiátricos demonstram que, o concurso da emoção, do humor, do afeto e de outros subprodutos aqui chamados genericamente de emoção, influenciam e direcionam o pensamento, sobretudo naquilo que tem de discurso e não de módulos de verdade justapostos. O pensamento é muito mais um todo verossímil, coerente e válido do que uma soma simples de sentenças verdadeiras ou falsas. Daí a maior ênfase no cenário e nas condições de contorno do que no exame isolado desta ou daquela sentença, deste ou daquele processo que, apesar de ligado à razão, jamais brota na consciência (por exemplo, a escolha de palavras e a flexão verbal durante um discurso ou conversa).

Cap. 15 A emoção e seus distúrbios

SÍNTESE

Os distúrbios emocionais são seguramente os mais comuns e mais facilmente tratáveis. Entre eles estão as depressões e a ansiedade, afec-ções que debilitam funções mentais.

É importante notar que os conceitos emocionais são forjados à custa da experiência e da submersão lingüística. A reordenação de departamentos ocorre porque o vocabulário primitivo (prazer e desprazer) é insuficiente e digital. A dinâmica analógica é justamente a que permite que conceitos como angústia e ansiedade possam indicar nuanças que aversão ou desprazer não captavam. Isso onera o sistema na forja de conceitos às vezes excessivos. Porém, para a descrição de cenários complexos e sobretudo para a consciência, são fundamentais.

Cumpre perguntar se esses conceitos, principalmente os que descrevem emoções sob a forma de pensamento, são construções cerebrais naturais ou produtos da linguagem e da cultura. São as duas coisas, e aí reside a dupla face do mental.

As máquinas poderão simular a mente na medida em que se garanta a tradução radical de conceitos emocionais e volitivos em expressões do pensamento. No entanto, isso requererá que se faça uma cuidadosa investigação sobre como os conceitos são formados dinamicamente na mente humana e transpostos para a consciência.

Cap. 16 Patologias da vontade

SÍNTESE

Toda patologia mental é de uma maneira ou de outra uma patologia da vontade. Grande parte delas envolve os lobos frontais, responsáveis pela ação voluntária e fornecedores de quadros para as comissões que forjam o mental.

A requalificação da vontade com base cerebral parece contraditória. Não é. Passa, porém, pelo exame de algumas peculiaridades: a) nem toda vontade expressa verbalmente como tal é vontade neural; b) como a vontade é sobretudo um problema de controle, devemos não só estudar as razões que levam à emergência da sensação de vontade e de liberdade na consciência, mas também entender por que mecanismos se inibem ou se ratificam certos planos.

A vontade de que falamos na linguagem é ilimitada, parente dos deuses, embora limitada pela alegoria divina. A vontade cerebral é um vetor que se soma a outros, resultando daí comportamentos que podem ser imputados cientificamente como voluntários ou não.

Cap. 17 Atenção

SÍNTESE

A atenção é uma função importante na relação do cérebro com a mente. Para alguns seria a consciência purgada de vocabulário filosófico. Não é. Se a consciência investiga grandes cenários, a atenção executa pequenas rotinas. Para isso aportam-lhe, dos sentidos, informações. Focaliza aquelas que são relevantes para uma teoria prévia. Nos animais, essa teoria não requer consciência porque imutável e gravada na história da espécie. No ser humano varia em cada cabeça. Portanto, a consciência gera a hipótese geral e a atenção vai à cata de corroboração e refutação.

As hipóteses, no entanto, podem ser simples ou complexas. A hipótese sensorial busca confirmação nos sentidos. A hipótese discurso, complexa, busca confirmação em um sentido extra. Não são mais os sentidos que respondem sim ou não a uma sentença simples. É a razão que estabelece plausibilidade para discursos, através do exame da validade e não da verdade.

Os impasses podem ser resolvidos pelo jogar dados; em vez de consultar a vidente, a percepção de indeterminação de certas respostas é o momento máximo da razão.

Distúrbios da atenção podem ser qualificados tanto do ponto de vista neuronal quanto mental. Nas patologias mentais de base cerebral há nítido comprometimento da atenção. Nos distúrbios mais gerais, pode-se dizer que a atenção está em xeque: a) porque se tornou esperteza; b) porque deixou de ser busca ativa de confirmação de hipóteses de conhecimento para ser consumo de versões impingidas pela propaganda e pelo mercado.

Cap. 18 Linguagem

SÍNTESE

A linguagem é um dos grandes artífices da mente e da cultura. Inicialmente departamento concreto exclusivo do cérebro humano, torna-se virtual pela exposição ao meio. Se carrega consigo a capacidade potencial de reconhecer a natureza proposicional de uma seqüência de símbolos, posteriormente deverá equipar-se para manipular regras superficiais da gramática, significados e discursos.

O exame da natureza proposicional ou não de uma seqüência não deve ser confundido com sua natureza verdadeira ou falsa. Se não há problema com a verdade de sentenças que falam de objetos ins-pecionáveis diretamente ? "isto é uma rosa " ? ocorrem dificuldades com sentenças que falam de hipóteses. Nesses casos a boa construção não é apenas da sentença, mas também do discurso. Não é feita apenas na linguagem ordinE1 ria corrente, mas também através de outras como a lógica e a matemática. Discurso, modelos e teorias carecem de um sentido extra que examine sua verossimilhança. Não dizem respeito a fatos concretos e verdadeiros. Dizem respeito a fatos possíveis e, portanto, devem merecer cuidadoso exame para sabermos se são também plausíveis.

O critério de verdade de uma teoria ou de um discurso se baseia em complicada operação intelectual. Não é o caso de falar que teorias são verdadeiras ou falsas. É mais plausível dizer que alguém sofre de insônia porque seus centros cerebrais estão desregulados que dizer que era guarda-noturno em outra encarnação.

A relação da linguagem com a patologia mental faz-se, então, imediata. Vê-se, inicialmente, a deterioração da capacidade de verificar a verdade de uma proposição, seguindo-se a incapacidade de distinguir proposições de não-proposições e, finalmente, adotando-se formas não-proposicionais com o fito de comunicação.

A inteligência e a mente estão muito mais ligadas à capacidade de trabalhar com proposições potencialmente falsas, criando condições para distinguir as legitimamente falsas daquelas que podem ser teorias e generalizações científicas. Também o refinamento da comunicação de estados internos, condição para que a mente supere sua barreira de isolamento, requer um significado e uma capacidade sutis de compreender e gerar diferentes sentenças.

As patologias primariamente de linguagem podem ser muitas. Citamos as afasias e as dislexias, à guisa de exemplo, particularmente porque nas primeiras ocorre deterioração pelo não uso de certas capacidades e pelo fato de as segundas, antes consideradas disfunções psicológicas, serem hoje sabidamente cerebrais, resultantes da não-sincronização de funções ligadas à compreensão da escrita.

Cap. 19 Ação e percepção

SÍNTESE

Ação e percepção são as portas de comunicação da mente com o mundo. Presentes nos animais, tornam-se complexas à medida que nos aproximamos do ser humano. Se mente for entendida como processamento complexo e não previamente programado, então animais têm graus progressivos de vida mental. Porém, pelo concurso da linguagem e da formação de sociedades, a ação e a percepção, já complexas, tiveram de criar redescrições de si próprias. Não o fizeram por meio de mera cópia, mas sim, através do filtro da linguagem e da memória, de tal sorte que à ação presumida ou à percepção presumida viesse a se juntar um discurso consciente.

A consciência seria, então, uma redescrição valorada do que o processamento complexo gerou como ação ou percepção possíveis. Além de dirimir dúvidas, solucionar (através da retirada de ambigüidades que impeçam a solução trivial ou a convergência da solução para um atrator) aquilo que não pudesse ser suficientemente processado no ní-vel complexo, a consciência se tornou uma versão valorada e significativa da ação e da percepção. Em vez de ser mera cópia delas, interpreta-as, corrigindo-lhes a rota. Nesse sentido, inibe ou corrobora a versão que lhe chega do processamento complexo. Daí sua característica de ser "livre ", não para gerar, mas para inibir; não para perceber, mas para aceitar.

Os distúrbios da motricidade e percepção podem ser inúmeros. Quando disfuncionante em níveis primários, a percepção tende, na ausência de objeto externo próprio, a criar a sensação de sua presença. Pode-se alucinar com vozes, imagens, odores. Nesse caso usam-se remédios; porém, deve-se estar atento à possibilidade de pensamentos anômalos utilizarem-se de objetos perceptuais, criando com eles um discurso delirante que se parece com a alucinação. Nesses casos, não é mais anomalia da percepção, mas sim do juízo e da coerência no discurso, que envolvem conceitos perceptuais.

A anomalia motora pode aparecer tanto nas paralisias de fundo "emocional ", como também nas anomalias de controle do impulso. A violência, quando não inibida pela consciência, pode representar alteração do processamento complexo ou da consciência valorativa. Há, como de hábito, tanto mais se sobe rumo à consciência, um misto de fato cerebral e uma forte herança biográfica e cultural. Por isso, a mente que já era complexa torna-se consciência para justificar seus atos e percepções, acabando por engendrar uma burocracia autônoma, não mais diretamente ligada ao mundo dos sentidos e da motricidade, mas voltada para si através da reflexão.

Cap. 20 Memória

SÍNTESE

A memória está presente em todo processo que gere uma marca física em algo e sua posterior interpretação por alguém, resgatando-lhe o conteúdo original.

Se no cérebro a marca é a alteração de sinalização entre neurônios (através de alteração de potenciais de ação, de amplitude e freqüência e de conexão sináptica entre neurônios), o código e a intrepretação requerem, mais que uma teoria da memória, uma teoria da mente. Por isso, só tem sentido falar do código e da interpretação como elementos do processo de formação de memórias relacionando-os com a representação e a consciência.

O cérebro prepara fôrmas para que ali se depositem as funções mentais. Prepará-las é tarefa de reforço de conexões e representação. Como se fosse um bloco, cada conceito poderia, pela mudança de freqüências e sincronização, mudar de comportamento. Preparada a fôrma, sobre ela se depositam gabaritos ou máscaras, que são interpretações relevantes à luz das categorias mentais. No entanto, a idéia de máscara é virtual, porque a simples mudança de freqüência e sincronização já cria contornos invisíveis. O gabarito que estabelece correlação entre fôrma e forma é dado, tanto pela harmonia pré-estabelecida entre os fatos mentais (e portanto lingüísticos) e os fatos cerebrais, como também pela lenta história da espécie humana no forjar o encaixe perfeito.

Como fatos lingüísticos e sociais são cérebro também no que concerne ao meio que os implanta, embora passíveis de abstração porque códigos, a harmonia entre o mental e o cerebral não passa de harmonia entre dois planos do cerebral. Pelo concurso da linguagem, a ordem superior, aquela responsável pela consciência privada e pública, se investe de prerrogativas que não se esgotam no indivíduo, nem na sociedade de hoje, pois resultam da própria história da espécie. Daí sua capacidade de se encaixar na ordem inferior, cérebro concreto e operação complexa de cada um de nós desde o nascimento. Há, então, duas ordens: o cerebral e o mental; e o cerebral complexo e focado no indivíduo e o cerebral consciente focado na história da espécie humana, habilitada para a linguagem e para a formação de sociedade. Sem memória, essa história não teria como estabilizar a ordem cerebral e a mental, nem a cerebral da espécie e a cerebral do indivíduo, seja através de memória gravada em nosso corpo, seja através de memória gravada nas nossas instituições.

Cap. 21 Personalidade

SÍNTESE

A personalidade é uma função complexa. Transita por eixos básicos que nos animais podem claramente ser liderança, tradicionalismo, etc. No ser humano são muitas as suas formas e também os eixos em que é classificada.7 Adoto uma classificação, acorde com o fio condutor do livro, baseada em três características: quanto à ação, quanto à percepção (ou sensação) e quanto ao valor.

O valor, mediato ou imediato, aparece aqui como sucedâneo da consciência; pelo menos em sua parcela fundamental. O amoral, variedade individual de personalidade considerada patológica, é um diagnóstico-limite da psiquiatria. Talvez limite porque obriga à revisão da própria noção de anormal, uma vez que estamos diante de algo que pode ser apenas variação, modelo de mente.

Se a variação pode criar aberrações, e isso está contemplado na percela de acaso que cria variabilidade, a necessidade é que cria a adaptação. Isso é teoria evolutiva pura.

Portanto, se o psicopata pode ser variação, e se há algo de axiomático e arbitrário no pólo casual do processo, há que pensar no meio que vai torná-lo adaptado ou não. Esse meio, falando de modelos de mente, não é mais o natural, mas o social. Dependendo da sociedade que tomarmos como base média de onde partem as atuações individuais, corre-se o risco de fazer do amoral o grande sucesso de amanhã. Por pouco tempo, no entanto. A mente, entendida como sem limite, espiritual e instrumento de sucesso individual pode se deixar seduzir por variedades levemente psicopáticas. Porém, se entendida como predicado adaptativo da espécie que fundou e permitiu a reunião, terá no elogio da relativização da ética a perda de sentido para o público e para o privado. Ambos perecerão: a personalidade individual de tipo amoral e a sociedade que lhe preparou o banquete: a espécie entrará em colapso, talvez extinção.

Cap. 22 O sonho como função

SÍNTESE

O sonho nos interessa de maneira fundamental. Como exibe consciência, embora degradada, estando o organismo desacoplado do meio, então suponho que a consciência tem uma parte fortemente ligada ao cérebro e outra ao meio. Aquela ligada ao cérebro não é capaz de produzir coerência, controle e vontade. A vontade, tal qual concebemos, deve ser a tradução de uma vivência numa sentença. Ocorre na consciência, bem como a sensação de liberdade. Mas se ocorrem na consciência plena e vigil, mas não na onírica, então deve haver algum equívoco no processo.

Não temos, na verdade, geração de vontade e liberdade na consciência. Porém, ela, de posse de seus instrumentos de correção sobre o processamento complexo que ocorre no nível infraconsciente, pode inibi-los ou ratificá-los. Isso é suficiente para a vivência de vontade e liberdade, quando o que ocorre é apenas a correção de programas prévios, resultado da operação complexa de módulos não-conscientes.

A consciência puramente cerebral é desorganizada, sem controle, sem clara noção de sujeito. O meio adestra em nós a coerência e também a unidade do sujeito privado e público.

Sem linguagem e sociedade, esse meio natural poderia gerar consciência parecida com a do sonho. Talvez com a função, ainda assim, de solucionar ? nesse caso a noção de conteúdo ou forma reprimida, ou pelo menos não suficientemente clara para ficar no nível da complexidade ?, poderia ser revivido.

A consciência do animal não-social e não-lingüístico seria algo que se assemelha à nossa consciência onírica. Parca mas ainda assim com função. A consciência plena teria dois senhores a coordená-la: o cerebral e o social. Daí ser uma teoria do mental tão difícil porque no próprio cerne de sua operação ocorre a interface entre natureza e cultura. A unidade somente pode ser resgatada pela redução da natureza à cultura ? tudo seria discurso sobre objetos de conhecimento ? ou pela redução da cultura à natureza ? tudo seria fruto de hierarquias superponentes com a finalidade de coesão do grupo.

Cap. 23 Consciência: conteúdo, vivência e função

SÍNTESE

Uma teoria da consciência poderia ter o seguinte esboço. Se as ações são complexas no nível cerebral, há uma ordem paralela que percebemos como mental. Ou o mental se torna sinônimo de cerebral, o que é bom para educar pessoas sobre patologias e sua correção, ou então é preciso distingui-los.

A seleção dotou o ser humano de quatro elementos que podem ter sido fundamentais para a emergência do que chamamos de estilo mental de processamento cerebral: uma porção a mais de córtex; a linguagem; o dever e o valor sociais; e a possibilidade de criar sincronização de múltiplos módulos cerebrais (essa não exclusiva do ser humano).

As ações complexas, e também as percepções, quando triviais não recrutariam consciência. Quando ambíguas e conflitantes, necessitariam dela. Mas o que seria a consciência? Uma redescrição de ações presumidas que devem ser confirmadas ou abortadas. Apresentam-se, então, essas ações devidamente formatadas pela linguagem e pelas memórias. O que emerge na consciência é um conteúdo que é a ação pendente valorada e traduzida lingüisticamente. A consciência terá a função de valorar, inibindo ou ratificando, aquela ação. Essa é a consciência-função. A sincronização da ação presumida e da ação redescrita na consciência gerará a vivência de consciência (consciência-sensação) por intenso recrutamento de unidades neuronais (a vivência brota a partir de uma transição de fase do sistema ? é tal a quantidade de elementos necessários para a operação que praticamente o sistema todo está representado naquela reunião virtual e, portanto, essa representatividade espraiada e quase plena gera a sensação de auto-inspeção).

As situações ambíguas no plano da consciência individual poderiam ser novos elementos que se apresentam à consciência pública para que se tente dirimir dúvidas, ratificando ou abortando planos. Essa seria uma esfera de ação e retroação do indivíduo situado numa cultura e interagindo mentalmente com o semelhante, bem como com os objetos culturais.

A complexidade e a multiplicidade de cenários geraram múltiplas soluções; porém, muitas vezes essas soluções não são estáveis ou podem até não existir (ou numa linguagem já vista, pode ser incompleto o sistema formal que as descreve, gerando no caso proposições indecidíveis). Nesse caso recorre-se, com a finalidade de estabilizar o sistema, ao plano superior: do cerebral ao consciente, deste para o coletivo.

A vontade não é uma propriedade da consciência, como também não o é a liberdade. Porém, a consciência pode abortar ou ratificar planos e versões que nascem da parte cerebral complexa. Quando se ratifica ou inibe um plano inicialmente não-consciente tem-se a sensação (com tradução discursiva proposicional) de que se agiu livremente ou por vontade. O único erro é que a vontade não gera um plano, apenas o corrobora ou inibe.

Cap. 24 Sucesso, exclusão e sobrevivência

SÍNTESE

A idéia de que a satisfação pode ser critério de avaliação de teorias é um arremedo de biologia evolutiva. A teoria da mente deve ser cerebral, embora o mercado consumidor prefira consumir pseudoteorias. Ao perceber-se cerebral, a mente que forja o social poderá distinguir no plano dos dicursos de opinião alguns argumentos em favor de uma corrente ou de outra. Não reconhecer a necessidade de resgate da massa humana excluída do progresso constitui ameaça à espécie.

Verificar uma teoria, satisfazer o consumidor e legitimar-se somente pelo voto são todas situações de ignorância acerca do mecanismo de geração de idéias novas. Ao contrário de serem populares, encontram resistências e se não as enfrentassem não teria havido progresso.

Cap. 25 Mercado, poder central e cérebro humano

SÍNTESE

A noção de auto-organização é uma das modas importadas dos sistemas físicos para explicar e justificar certas posições político-econômicas. Complexidade e auto-organização são capazes de criar variabilidade; porém, os estados novos e imprevisíveis que se criarem poderão ser funcionais ou disfuncionais. Por isso corrigem-se cérebros pela educação e mercados pela regulação. Essa interferência externa é imprescindível para que os estados imprevisíveis estáveis não se tornem monstros incontroláveis. Do ponto de vista cerebral, patologias como a depressão seriam exemplos de auto-organização que gera estados estáveis e disfuncionais. Na economia, a estagflação seria exemplo semelhante. Porém, nem sempre é tão fácil notar a disfuncionalidade de certos estados novos e estáveis. Isso me parece estar ocorrendo com a ética que deveria permear ações individuais e coletivas. Ao se defender a auto-organização como paradigma único, a estabilidade do sistema parece ser indicativo de sucesso. Algo se torna estável, portanto, deve ser bom. Mas sabemos que a estabilidade pode ser disfuncional e que o sucesso pode ser um mau critério de verificação de algo. Pelo sucesso se teria jogado fora a teoria heliocêntrica; pelo sucesso se mantém um sem-número de cânones em flagrante desacordo com o bem coletivo. Esse é o resultado de incensar toda e qualquer atitude de sucesso pessoal a despeito de infração ética. Após ter sucesso, vê-se muitas vezes o indivíduo como vitorioso, relativizando-lhe as transgressões e o dano de seu exemplo para os outros. A auto-organização como fonte de variação é boa, mas não prescinde de um controle externo sobre seus estados estáveis disfuncionais. O sucesso de certas idéias e políticas atuais pode ser um mau critério para atribuir-lhes funcionalidade, visto que nem o sucesso é da ordem do ethos, nem é bom método de avaliação da correção de sistemas teóricos e complexos.

Se o cérebro carece da correção da educação e da cultura e se a mente individual parece surgir graças a um balanceamento entre variação e seleção, acaso e necessidade, paixão e dever, então todos esses elementos devem ser respeitados na discussão de uma ética coletiva e de uma nova consciência social.

Cap. 26 Quando a Cultura sitia a mente

SÍNTESE

A vontade e a liberdade podem, se entendidas como sopro divino, eclipsar a razão que as julga. Os sistemas complexos (aqui descritos como sistemas dinâmicos não-lineares) são um bom análogo explicativo. Para regiões chamadas de valores ordinários de parâmetros e de estabilidade estrutural comportam-se de maneira previsível; nas regiões de instabilidade estrutural e valor de bifurcação de parâmetros exibem imprevisibilidade no que tange ao estado futuro. Cascatas de bifurcações levam ao caos.

Se para intervalos normais (parâmetros ordinários) a decisão calcada na suposição de uma vontade livre e soberana, parente dos deuses, não muda muito o que seria feito no caso de uma vontade de base neural, em outros casos, talvez de instabilidade estrutural, diferenciá-las é fundamental.

Uma vontade de base neural é condição para a forja de um novo direito em muito igual ao atual nas regiões de estabilidade estrutural, porém algo diverso nas regiões de bifurcação.

A vontade pode parecer quimera, dado que o sistema que a realiza é determinístico e mecânico. Porém, minha hipótese é que o cérebro esteja todo o tempo forjando planos de ação e de percepção. Quando esses planos são triviais (ou numa linguagem mais técnica, quando há solução atratora para esse nível de processamento) não há a necessidade de recrutar a consciência (ou a mente lato sensu). Quando algo impede que o processamento cerebral infraconsciente seja capaz de agir ou perceber algo, então cria-se uma redescrição desse plano motor ou sensorial nas regiões neocorticais. Essa redescrição deve ser filtrada pela linguagem e pelas memórias. O sinal deve sofrer um estreitamento tal que se converta em proposição. Essa conversão gera um conteúdo que é o problema não resolvido na instância infraconsciente devidamente filtrado pela linguagem. Esse conteúdo sincroniza com o conteúdo anterior (infraconsciente) gerando a vivência de consciência. Desse processo surgirá a ratificação ou inibição do plano motor ou sensorial. Também fará surgir uma correção de parâmetros no plano infraconsciente tal que no futuro um problema análogo possa ser resolvido sem apelo à consciência.

Os processos de ratificação ou inibição é que me parecem ser os análogos da vontade e da liberdade. Não somos livres para querer porque as ações que suscitarão vivência de vontade e liberdade estão todo o tempo sendo planificadas abaixo da consciência. Somos livres no entanto para ratificar ou inibir cenários hipotéticos de ação ou percepção que nos brotam na consciência.

Claro que há dois modos de coagir um indivíduo: reprimi-lo através do filtro ou educá-lo para que cada vez mais o sistema infra-consciente não encontre solução automática nas ações e percepções potencialmente danosas ao ethos.

A antiga noção de educação pretendia talvez exercer controle sobre o filtro: a transgressão não chegaria à consciência, nem por isso se garantiria que não se concretizasse em ato. Mais ainda, essa moral repressiva de tipo vitoriano somente fez amplificar uma série de distúrbios mentais. A educação lenta e o reforço dos valores garante que a um só tempo se enriqueça a teia de conexões infraconscientes, o que resultará gerar ausência de solução atratora toda vez que se incorrer em potencial afronta a uma norma de ethos, mantendo-se o filtro da consciência tão amplo quanto possível, para que, uma vez recrutada, possa exercer o papel de ratificação ou inibição da melhor maneira.

Para as situações-limite um esboço de teoria neural da vontade pode modificar alguns dos julgamentos que fazemos acerca do caráter intencional e delituoso dos atos e percepções.

Cap. 27 A mente educada

SÍNTESE

O papel da educação é fundamental em qualquer projeto de modificação de comportamentos individuais e coletivos. Se isso parece trivial, não o é na medida que devemos entender que primeiramente se estão alimentando conexões que garantam que as ambigüidades serão transferidas do plano automático para o consciente. Além disso, garante-se que a educação não será apenas vertical, mas fortemente pluralista e horizontal; mais ainda, ela deverá conter todo o tempo apelo ao primado da ética como base da formação da mente, não por normatização externa, mas por alusão ao caráter biológico dessa ética.

Afastar a má-compreensão sobre a mente e sobre sua razão cerebral embasante, seu potencial de desvio e o uso que os ignorantes e inescrupulosos fazem disso é fundamental para que redesenhemos uma nova consciência.

Uma ciência da mente é cerebral e também deve ser uma exaltação do caráter ético que subjaz ao aparecimento da linguagem e da sociedade. Sem entendermos que a mente é feita para interagir e manter coesa a espécie não iremos a lugar algum, ainda que para isso façamos uma ciência cognitiva tecnológica de construção de robôs que jogam xadrez com os miseráveis de pés no chão.

NOTAS por capítulo

INTRODUÇÃO

1. Cf. Sagan, C. (1996) O Mundo Assombrado pelos Demônios: a ciência vista como uma vela no escuro. São Paulo: Companhia das Letras.

2. Constitui problema interessante em filosofia da ciência a confrontação entre o verificacionismo e o refutacionismo. Se o primeiro pode fazer muita coisa ao confirmar previsões de uma teoria, o segundo é o único critério para fornecer situações-limite e experimentos cruciais de desconfirmação de uma teoria ou pelo menos para delimitar seus limites de aplicação. O filósofo Karl Popper foi o grande responsável pela idéia de uma ciência que se pauta pelo estatuto refutatório de suas proposições. O verificacionismo pode, ao afirmar que "P implica Q", exibindo em seguida Q, cair na falácia de afirmação do conseqüente. Essa afirmação é evitada quando se acompanha "P implica Q" de um "não-Q". Nesse caso se "não-Q então não-P". Se todos os cisnes são brancos e encontro um cisne branco esse espécime em nada me serve para confirmar a sentença geral. Mais ainda, se pretender usá-lo como afirmação da verdade da generalização, estarei incorrendo na falácia de afirmação do conseqüente. O método de procurar a refutação é o que garante cientificidade a uma generalização e estatuto lógico à forma subjacente: "P implica Q, não-Q...logo não-P" regra de inferência conhecida em lógica como Modus Tollens. Cf. a esse respeito Popper em obra citada na bibliografia e outras referências de filosofia da ciência e de lógica. A agudeza dessa regra encontra-se também nos versos de José Régio: "Não sei por onde vou, Não sei para onde vou, -Sei que não vou por aí!". A ciência, particularmente nos estágios iniciais pré-paradigmáticos, é muito mais um método de prescrição de por onde não se deve ir que uma substantivação de soluções já operacionais. Nota-se a diferença de um discurso sério sobre a mente quando, em lugar de um conjunto de truísmos afirmativos, se oferecem regras de delimitação da patologia. Cf. Popper, K. (1975) Conhecimento Objetivo. São Paulo: Ed. Itatiaia e Edusp. Cf. ainda, a respeito da temática geral do livro, do mesmo autor, Popper, K.(1994) Knowledge and the Mind-Body Problem: in defence of interaction. Londres: Routledge. Cf. Regio, J. (1985) Antologia. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira. p. 50 do Cântico Negro.

3. Essa noção de psiquiatria como neurologia de função superior é restritiva. Para iniciar o livro cabe usá-la como argumento forte contra a descerebralização da mente. Porém, a psiquiatria é mais que uma neurologia de função superior, encontrando-se na conjunção da natureza que se faz cultura e da cultura que se pode reconhecer natureza. As fôrmas cerebrais são preparadas de tal forma que se encaixem nelas as formas e conteúdos mentais. Embora sejam todas as três oscilações e sincronização de assembléias neuronais, as formas mentais sofrem profunda coação da linguagem e os conteúdos mentais sofrem coação da linguagem e da cultura. Portanto a interface mental e suas formas desviadas restringe-se ao cérebro enquanto órgão que implementa códigos mentais, porém, não encontra na razão cerebral sua totalidade explicativa. O grande desafio é entender a articulação dos três níveis e, mais ainda, circunscrever as patologias de cada um. Pode-se dizer que há três níveis de patologias: as puramente ligadas às fôrmas cerebrais que requerem medicações para sua correção; aquelas ligadas à formação de condicionamentos anômalos que carecem de recondicionamento comportamental; finalmente, há aquelas que se situam na ordem dos significados, tanto formas quanto conteúdos da mente-linguagem, e que, embora também careçam muitas vezes de medicação, são basicamente tratadas por terapias de base psicodinâmica com graus progressivos de interpretação de significados anômalos associados.

CAPÍTULO 1

1. Sistemas nervosos simples costumam não fazer categorizações intraclasse. Assim, quando dizemos "Se A então B", A e B costumam ser representantes de conjuntos de um único elemento. Por outro lado, com a complexidade, surge a categorização intraclasse, o que redunda em que A´s e B´s são todos os elementos dos conjuntos A e B. Essas classificações admitem ainda cruzamento e superposição, não constituindo conjuntos fixos de categorias.

CAPÍTULO 2

1. A complexidade de processamento já se dá no nível do neurônio isolado. Até recentemente se acreditava que a complexidade e o cerne do processamento surgissem da reunião de neurônios em assembléias. Uma das figuras centrais deste livro, que enxerga no neurônio a fonte de complexidade e codificação através de freqüências variáveis de disparo de potenciais de ação (intervalo inter-espículas), está ratificada, bem como o status do neurônio isolado como base do processamento complexo, em artigo de 1997 de Christof Koch na revista Nature. Cf. Koch, C. (1997) "Computation and the Single Neuron" in Nature vol.385 p. 207-210.

2. A noção de carga positiva e negativa aqui está sendo usada para facilitar a compreensão do leigo. Para o leitor mais exigente, como tanto o sódio quanto o potássio são íons positivos, o que há é que o ambiente em torno do neurônio está mais positivo e o interior do neurônio, menos positivo. Essa diferença é capaz de criar um dipolo que é, basicamente, o processo biofísico de membrana capaz de engendrar toda a complexidade de sinalização no cérebro humano. Para facilidade de compreensão, estipula-se que mais positivo é positivo e que menos positivo é negativo. Esse dipolo, resultado da diferença de concentração relativa de cargas elétricas no interior e no exterior do neurônio, bem como da migração dessas cargas através de processos ativos e passivos através da membrana é responsável, às vezes, por flutuações de ponto de equilíbrio. Muitos autores tratam esse fenômeno com idéias advindas da termodinâmica de não-equilíbrio (sistemas abertos, estruturas dissipativas), procurando mostrar que, em determinadas condições, pode ocorrer auto-organização de um determinado padrão e posterior migração dessa onda de despolarização para regiões cerebrais vizinhas. A depressão alastrante é um exemplo desse fenômeno, bem como uma série de outros fenômenos "epileptóides" parciais no sistema nervoso central. Cf. a respeito de termodinâmica de não-equilíbrio, mais a frente, a obra de Prigogine. Cf. a respeito de depressão alastrante e de outros fenômenos de auto-organização na biofísica do fluxo íonico na membrana, Fernandes de Lima, V. e Hanke, W. (1996) "The Role of Spatio-Temporal Dissipative Structures in the Physiopathology of Functional Syndromes in the Central Nervous System" in Coleção Documentos IEA-USP, Série Ciência Cognitiva.

3. Pela natureza deste livro, usamos acima apenas descrições alegóricas do processo de decisão ou integração. De maneira mais técnica podem-se estipular ou descrever através de modelos formais ou matemáticos as situações apresentadas acima. Assim, temos inferências possíveis, lógica nebulosa (fuzzy-logic), algoritmo genético, autômatos celulares, mínimos quadrados, soma simples, máximos e mínimos, função radial média, "o vencedor leva tudo", gradiente descendente, regra delta, entre outros. Há mais de 20 tipos diferentes de mecanismos de decisão que se pode atribuir a neurônios nas redes neurais artificiais. Não se sabe se o sistema nervoso humano integra de maneira tão variada a informação ou se perfaz apenas uma soma simples ou uma soma vetorial. Creio, embora não haja garantia de isomorfismo entre os algoritmos decisórios em redes neurais artificiais e neurônios reais, que o exemplo de uma multiplicidade de modos de decisão captura a riqueza que está por trás da integração de potenciais locais vindos dos dendritos, devidamente amortecidos pelas propriedades de cabo, e finalmente integrados no corpo celular. A riqueza de modulação das seqüências de potenciais de ação, não apenas disparo digital, parece confirmar a necessidade de variados mecanismos de integração de informação no corpo celular. O leitor não deve se preocupar com esses nomes e técnicas acima, bastando entender o exemplo do pai, da mãe e do filho. Seja no exemplo, seja na alusão que fazemos nesta nota, está implícito o número diferente e enorme de possibilidades de regras de jogo que ordenam o sentar-se à mesa de três correntes diferentes, de pesos diferentes, vindas de locais e em instantes diferentes. Embora explicada coloquialmente, aqui está uma das grandes "sacadas" da natureza e, posteriormente, da chamada replicação do comportamento humano em máquinas - a "inteligência artificial".

4. Limiar, na verdade, é uma propriedade física de transição brusca de fase, retratada por uma não-linearidade numa equação matemática. Uma vez atingido um determinado valor - limiar - inicia-se um processo rápido que corresponde à "porta aberta". A geração do potencial de ação põe em marcha uma série de fenômenos iônicos ativos, não mais simples migração de cargas pelo dipolo, mas bombas de membrana que incrementam o transporte seletivo de íons pela membrana. Com isso surge uma diferença de potencial rápida e aguda chamada potencial de ação, que, graças a esses mecanismos de bomba e ao isolamento do axônio pela bainha de mielina, progredirá intacto, sem perda, até o terminal pré-sináptico do axônio. Ali se darão os fenômenos de transdução de energia elétrica em quanta de neurotransmissores.

5. Para aqueles que quiserem ir um pouco mais a fundo no problema, vamos apenas rememorar que os impulsos que deram origem às três correntes nos dendritos são de amplitude variável, além de terem localizadores no tempo e no espaço diferentes. Isto é, tanto amplitude, quanto posição e instante são diferentes (além de duas outras diferenças não tratadas no âmbito deste livro, que são o fato de poderem ser correntes negativas - hiperpolarizações - e de que a taxa de decaimento da corrente ao longo do dendrito também é um ponto crítico porque sujeita a processos físicos de dispersão, bem como a "shunts" ou curto-circuitos no trajeto). Portanto, as correntes dendríticas ou potenciais locais, em oposição ao potencial de ação, são fenômenos essencialmente analógicos. Migram até o corpo celular e lá, após integração, se houver limiar, são digitalizados como potenciais de ação. O potencial de ação considerado como digital faz perder a riqueza de informação analógica contida nos diferentes aportes dendríticos locais. Considerando-se, como é o modo mais contemporâneo, a codificação analógica do potencial de ação em pulsos de freqüência variável, podemos imaginar que haja um homeomorfismo entre a complexidade analógica da reunião de potenciais locais e a complexidade analógica dos múltiplos potenciais de ação. Entre ambas há um fenômeno digital no que diz respeito ao caráter tudo ou nada do potencial e a uma não-linearidade devida à presença de limiar. Sobre a moderna concepção de potencial de ação como codificador de propriedades e sobre sua capacidade de carregar informação no intervalo entre eles e não apenas na sua média de disparo (antiga concepção), cf. Fujii, H., Ito, H., Aihara, K., Ichinosse, N. e Tsukada, M. (1996) "Dynamical Cell Assembly Hypothesis - Theoretical Possibility of Spatio-temporal Coding in the Cortex" in Neural Networks, Vol. 9. No 8, pp. 1303-1350. Esse artigo será essencial para entender que a regra de aprendizado e memória pode ser analógica e captável através de uma análise de intervalos inter-espículas. Mais a frente, veremos importante análise desse mecanismo na gênese de memória (e também, pode-se supor, de mapas cognitivos) no hipocampo. Cf. Tsukada, M. et. al. "Hippocampal LTP Depends on Spatio and Temporal Correlation of Inputs" na nota 4 do capítulo 10.

6. AtenE7ão porque nesta alegoria do código de barras está contida ainda uma das grandes temáticas da ciência cognitiva: há, nos quatros exemplos de código de barra, 4 "tokens", porém, são quatro "types" ou tipos diferentes (como no caso de termos a seqüência bbbb, onde se encontram 4 "tokens" e apenas 1 "type"). Os argumentos em favor da irredutibilidade do mental ao cerebral encontram nessa distinção sua maior força. Argumenta-se que todo processamento mental é processamento cerebral, isto é, que há sempre um "token" cerebral codificando a informação mental. Essa tese, chamada de "token-identity", não implica dizer que haja projeção ou redução dos tipos mentais em tipos cerebrais. As generalizações da esfera mental seriam não-projetáveis nos "types" cerebrais. Esse argumento é irrespondível, valendo também para o caso de tentativas de redução de níveis de programa a níveis de hardware em computadores. Minha estratégia no livro será tentar erigir uma partição na esfera do mental, não de tipos como cadeiras ou gatos, mas de funções. Essa partição terá como grande alavanca a separação entre consciente e não-consciente. Definido o "type" mental consciente e não-consciente, através de sua caracterização como controle voluntário ou automático, tentarei mostrar que esse "type" funcional-mental pode ter projeção, e portanto, redução, numa linguagem cerebral, definindo-se bifurcações como condições necessárias e suficientes no nível do sinal para que se faça a projeção e identificação de "type". Cf. a respeito da crítica às tentativas de "type-reduction", Fodor, J., (1975) The Language of Thought. Harvard University Press (pp. 1-26). A respeito da minha tentativa de redução via partição de funções mentais, consulte Del Nero, H., Maranca, A. e Piqueira,J. (1997) "Topological Computation and Voluntary Control: the possible role of the neocortex and the very aim of cognitive science" in Coleção Documentos IEA-USP, Série Ciência Cognitiva. Sobre a importância de bifurcações em neurologia e função cerebral cf., por exemplo, 1) Milton, J. et. al. "Complex Dynamics and Bifurcations in Neurology" in Journal of Theoretical Biology (1989) 138 (pp. 129-147); 2) Milton, J., Black, D. (1995) "Dynamic Diseases in Neurology and Psychiatry" in Chaos 5 (1) (pp. 8-13).

CAPÍTULO 3

1. Na verdade, como vimos, não há predicados interpretados na linguagem natural trafegando pelos dendritos e axônios. O exemplo visa a resgatar a operação de reunião de predicados e sua transformação posterior num mecanismo de reunião/decisão que no caso é a aplicação do conectivo "ou" a duas sentenças, gerando uma terceira. Veremos adiante a representação do neurônio como aparato "booleano" e sua interpretação como estrutura capaz de realizar a conexão lógica de sentenças. "Malvado" ou "desdendentado" poderiam ser quantificados sob a forma de: "Existe um x tal que, se x é P, então x é M." O mesmo valeria para o outro predicado e também para a construção da disjunção "Existe um x tal que, x é M ou x é D".

2. Esse mensageiro não é apenas um, mas vários. Basicamente são o AMP cíclico e a proteína C. Sua regulação mostra dois aspectos fundamentais: primeiramente, descreve um processo de regulação de expressão gênica em função da experiência, ao contrário de suposições que entendessem o gene como estático e totalmente pré-gravado (a clonagem de um cérebro seria algo que transportaria o "hardware", mas não o "software", resultado de modificações locais nas conexões entre os neurônios, mediadas pelos genes mas não contidas no genótipo). Em segundo lugar, esse mecanismo é fundamental na psicofarmacologia. De maneira geral, o resultado imediato de uma droga pode se creditar à sua possibilidade de mudar a taxa de transmissão na fenda sináptica, o que muda o ganho de malha do sistema. Isso pode inclusive alterar a solução do sistema, o que desloca a topologia, por exemplo, de um ciclo-limite para um ponto assintoticamente estável. Em muitos distúrbios, no entanto, essa mudança na taxa de transmissão na fenda não é capaz de promover melhora. Espera-se, assim, um período de 3 a 5 semanas até que se alterem expressões gênicas responsáveis pela formação de receptores. Essa propriedade é conhecida como "down-regulation". Pode-se lançar a hipótese de que quadros com maior componente ansioso e reativo se beneficiam do mecanismo imediato de alteração de taxa de transmissão, enquanto as características mais estruturais, como depressão, por exemplo, costumam requerer o segundo mecanismo. Diga-se de passagem que não há ainda evidência inquestionável de que sejam esses os mecanismos envolvidos na melhora de quadros psiquiátricos com o uso de psicofármacos, embora seja hipótese, de longe, de maior consistência que outras.

3. O item concernente aos mecanismos de ação de drogas é muito mais complexo. A visão do texto é uma primeira aproximação didática que pode auxiliar o leitor não-especializado. Sugiro para uma visão mais aprofundada: 1) Barondes, S. (1993) Molecules and Mental Illness. Nova Iorque: Scientific American Library; 2) Snyder, S. (1986) Drugs and the Brain. N.I: Scientific American Library; 3) Hyman, S., Nestler, E. (1993) The Molecular Foundations of Psychiatry. American Psychiatric Press; 4) Hyman, S., Nestler, E. (1996) "Initiation and Adaptation: A Paradigm for Understanding Psychotropic Drug Action" in American Journal of Psychiatry 153:2; 4) Jeffery, K., Reid, I. (1997) "Modifiable Neuronal Connections: An Overview for Psychiatrists" in American Journal of Psychiatry 154:2. Nesse tópico ainda podem ser citadas algumas áreas de fronteira: o uso de metodologia de rede neurais para desenho de drogas, o chamado desenho inteligente de drogas (por exemplo, usando química combinatorial), e o advento de chips tão pequenos que possam constituir drogas que se autotransformam ao reconhecer o receptor in loco. No futuro a droga poderá conter alguns artifícios computacionais tais que, chegando ao receptor, faça uma varredura (scan) de sua estrutura e, usando matéria-prima local, acabe de polir seus encaixes para ligar-se adequadamente ao receptor. A bibliografia acerca de uso de redes neurais no desenho de drogas pode ser achada, por exemplo, em Weinstein, J., Waltham, M., Myers, T. (1996) "Neural Networks in Drug Discovery" in International Neural Network Society 1996 Annual Meeting. Lawrence Erlbaum Associates (pp. 1155-1161); sobre desenho inteligente de drogas cf. Nature Supplement to volume 384 Issue 6604 Novembro 1996 "Intelligent Drug Design"; sobre nanotecnologia (chips capazes de ter tamanhos da ordem de grandeza de estruturas como os neurônios) consulte a home-page (bibliografia atualizada e anúncio de encontros internacionais) de Ralph Merkle da Xerox Company, www.merkle.com; endereço eletrônico: merkle@xerox.com; outra página da web: http://nano.xerox.com/nano.

CAPÍTULO 4

1. A estrutura hierárquica e modular se chama estrutura de dados. Pode realizar, devido à complexidade, tarefas extremamente ricas. Um cérebro poderia perfeitamente ser uma estrutura desse tipo, mas parece que o processamento é analógico e não digital. Esse é o grande desafio deste livro: mostrar todos os estilos de processamento e como o cérebro é visto hoje em dia. De toda forma, deveremos aprender bem o processamento digital, porque creio que, por alguns anos ou décadas ainda, grande parte dos programas que simulam a mente tenderão a se utilizar desse padrão. Cf. a respeito da chamada "estrutura de dados" (data structures) e sua qualificação como processamento mental digital Dennett, D. (1981) Brainstorms: Philosophical Essays on Mind and Psychology. MIT Press. (pp.109-126.)

2. Grande parte do nosso conhecimento e aprendizado se dá dessa forma. Após tentativas e erros, migramos para situações estáveis em que há uma regra clara de procedimento e, com o tempo, uma explicação do porquê de se agir dessa maneira e não de outra. Pode-se dizer que iniciamos o aprendizado num cenário de energia com muitos pontos de mínima local, o que é desinteressante; com o tempo, somos capazes de perfilar alguns poucos atratores, capazes agora de classificar com rapidez as ambiguidades e também as situações similares ao exemplo aprendido.

3. Uma tese muito interessante no sentido da formação da mente a partir de elementos de interação social, desde que equipada com um cérebro adequado, pode ser encontrada em Jaynes, J. (1976), republicado em (1990) The Origin of Consciousness in the Breakdown of the Bicameral Mind. Londres: Penguim Books.

4. Deve ficar claro ao leitor mais exigente que existe uma infindável superposição de níveis na organização cerebral. Os conceitos de processamento dinâmico e de formação de comitê não são compatíveis com as noções que conhecemos hoje de grandes divisões macroscópicas (por exemplo dizer que a emoção está no sistema límbico ou que a linguagem está na área de Broca) nem são compatíveis com subdivisões outras do tipo hodologia (circuitaria) neural ou sistema dopaminérgico x adrenérgico. Porém, se há a possibilidade de se formar um recrutamento dinâmico no espaço de sinais elétricos, subjaz a isso uma complexidade estrutural concreta que deve, no nível de biofísica de membrana e fluxo de íons, possibilitar que se ajustem freqüências determinadas e codificação temporal. Também certas propriedades de campo na análise do sinal elétrico e de processamento em células antes tidas apenas como suporte (como é o caso das células da glia) podem estar envolvidos numa retaguarda concreta à formação das dinâmicas de sinalização temporal. Ciência, no entanto, implica fazer certos recortes e estabelecer certos níveis para a ocorrência de nosso vocabulário. Para uma visão de tamanho médio do cérebro, não é tão essencial que se chegue nem à análise de campos formados por fluxo iônico, nem a estruturas tão grandes quanto muitos apregoam por aí (a mente é o lado direito ou o lobo frontal); vale a dicotomia departamento concreto x departamento virtual. Essa tese tem por objetivo fazer face a uma nova voga de pensamento que procura estabalecer uma "nova frenologia" ou localizacionismo, na feliz expressão de Miguel Nicolelis. Ora, nem no nível das áreas primárias há um localizacionismo tão estrito, havendo dinâmica que faz campos receptivos migrarem enquanto se executa a tarefa. Também uma certa concepção de neuropsicologia clássica baseada em correlações de lesões e disfunções precisa ser combatida, porque, se por um lado auxilia no prognóstico e diagnóstico de inúmeros quadros, não faz senão esclarecer regiões preferenciais de processamento de certas funções (o que chamo de uma comissão se reunir, preferencialmente, no 2o ou 3o andar) sem, no entanto, explicar a gênese da função devido a um certo estilo de processamento. Cf. a respeito dos trabalhos sobre dinâmica em áreas sensoriais primárias, particularmente no processo de detecção de movimento pelas vibrissas do rato: 1) Chapin, J., Nicolelis, M., "Beyond Single Unit Recording: Characterizing Neural Information in Networks of Simultaneously Recorded Neurons" in King, J., Pribram, K. (1995) Scale in Conscious Experience: Is the Brain Too Important To Be Left to Specialists to Study. Lawrence Erlbaum Associates (pp.133-154); 2) Nicolelis, M., Lin, C., Woodward, D., Chapin, J. "Distributed Processing of Somatic Information by Networks of Thalamic Cells Induces Time-Dependent Shifts of their Receptive Fields" in Proceedings of the National Academy of Sciences 90: 2212-2216, 1993; 3) Nicolelis, M. et. al. (1993) " Periphereal Block of Ascending Cutaneous Information Induces Immediate Spatio-Temporal Changes in Thalamic Networks" in Nature 361: 533-536, 1993. Todos esses textos se referem à migração dinâmica de áreas sensoriais primárias.

5. O leitor deve notar a complexidade do problema. Para recepção da informação visual temos um departamento concreto situado no lobo occipital. Dentro desse departamento há módulos, ou conjuntos de funcionários, especializados em diferentes tarefas visuais: detectar claro/escuro, cor, movimento lateral, etc. Percebe-se, assim, que o cérebro é uma máquina infernal que reúne departamentos concretos em abundância incomensurável e a eles acresce os departamentos virtuais no plano do processamento temporal da informação.

CAPÍTULO 6

1. A idéia de que haja uma codificação local (place-coding) ou doutrina da célula única (também conhecida como "neurônio da vovó") deve-se basicamente a Barlow, Mountcastle, Hubel e Wiesel. Nessa forma de encarar a codificação haveria uma célula - ou um conjunto delas - que estariam aptas a reconhecer certos objetos ou aspectos primitivos de objetos: linhas horizontais, movimentos, alfabetos visuais feitos de objetos côncavos, convexos, etc. Essas células especializadas na deteção desses elementos primitivos disparariam potenciais de ação em maior número e com maior freqüência tanto maior fosse a tipicidade do objeto apresentado. De uma certa forma a codificação de freqüências seria apenas um grau de maior ou menor certeza da presença do objeto. Veja que isso não torna a codificação na freqüência desinteressante. Pelo contrário, ela é usada como medida de fidelidade. Porém, a freqüência medida nesses casos é apenas a média de potenciais de ação disparados, não importando o intervalo entre eles. Para se calcular a média aplicamos uma estatística de 1a ordem, enquanto para medir os intervalos - código de barras (intervalos inter-espículas) - aplicamos uma estatística de 2a ordem. Embora haja, nas áreas primárias e secundárias, grande quantidade de assembléias com características do tipo deteção de um primitivo e freqüência como medida de fidelidade, essa forma de codificação elemento a elemento se perde totalmente à medida que se progride para as áreas de associação. Nas áreas de associação o que impera é a codificação realmente temporal, em que o intervalo entre os potenciais de ação cria diferentes tipos para posterior manipulação. Essa é a genuína codificação temporal. Cf. a respeito da doutrina da célula única ou da codificação local: 1) Hubel, D., Wiesel, T. (1968) "Receptive Fields and Functional Architecture of Monkey Striate Cortex" in Journal of Physiology, 195, pp. 215-243. 2) Barlow, H. (1972) "Single Units and Sensatioperceptual Psychology?" in Perception, 1, (pp. 371-394). 3) Mountcastle, V. (1957) "Modality and Topographic Properties of Single Neurons of Cat´s Somatic Sensory Cortex" in Journal of Neurophysiology, 20, (pp. 408-434). Sobre codificação temporal propriamente dita consulte todos os outros textos citados ao longo do livro.

2. Essa é uma maneira de apresentar o trabalho fundamental de McCulloch and Pitts, que em 1943 propõem o neurônio como instanciador de conectivos lógicos, mais ou menos no espírito da explicação dada no corpo do texto. Cf. McCulloch, W. e Pitts, W. (1943) "A Logical Calculus of the Idea Immanent in Nervous Activity" in Bulletin of Mathematical Biophysics 5: (pp. 115-133). Como observam alguns autores, na verdade poderíamos ter apenas um neurônio processando esses conectivos e três codificando aqueles em que haja problemas de separabilidade linear - caso do "ou exclusivo". Prefiro, no entanto, seguir a maneira mais clássica de apresentar o problema usando três neurônios para os conectivos tradicionais e quatro para o "ou exclusivo" e outros, desde que os limiares e pesos sinápticos sejam corretamente calibrados.

3. Essa idéia de variação de peso da conexão sináptica deve-se basicamente a Donald Hebb e ficou conhecida posteriormente, endossando mecanismos de aprendizado, como sinapse hebbiana. Cf. Hebb, D. (1949) The Organization of Behavior, N.I.: Wiley, (introdução e capítulo 4 pp. xi-xix e pp. 60-78).

4. Cf. a respeito dessa sincronização, por exemplo, Contreras, D., Destexhe, Sejnowski, T., Steriade, M. "Control of Spatiotemporal Coherence of a Thalamic Oscillation by Corticothalamic Feedback" in Science, vol.274,1996 (pp.771-774) (figura modificada da p.771).

CAPÍTULO 7

1. Esse exemplo é uma variante do exemplo do quarto chinês de John Searle. Poderá ser encontrado em qualquer manual de ciência cognitiva e também na obra citada do autor na bibliografia final. De maneira sucinta diz que, se colocássemos num quarto fechado uma pessoa que não sabe chinês e que apenas tem, à sua disposição, caixas com símbolos chineses e um livro sobre como manipular esses símbolos, essa pessoa, em que pese não compreender a língua, seria capaz de responder adequadamente qualquer pergunta formulada em chinês que fosse depositada no quarto. Responderia como se compreendesse chinês, mas na verdade seria apenas capaz de manipular regras e símbolos. Searle, com esse exemplo, diz que o computador é apenas um manipulador de regras (sintaxe) e que não tem compreensão genuína (semântica). Cérebros e mentes não são, segundo ele, computadores digitais porque, além da manipulação sintática, são capazes de entender significados. O exemplo da figura no corpo do texto é o de uma sala fechada que codifica em códigos de barra. Posteriormente há um cérebro a decodificar-lhe a informação. A superação do problema da manipulação sintática se daria, num primeiro momento, pelo recurso ao analógico, mas também, como veremos mais à frente, através da sincronização entre mundo, cérebro e mente, numa cadeia de ressonâncias dinâmicas e adaptativas. Cf. sobre o do quarto chinês Searle, J. (1984) Minds, Brains and Science. Harvard University Press. (pp. 28-41)

2. Essa hipótese é radical e discutível. Assume-se que haja identidade entre fatos e oscilações que os representam. Poder-se-ia retrucar dizendo que os códigos de barra variam de pessoa para pessoa e mesmo, numa mesma pessoa, de momento para momento. Isso é verdade: porém, como defino a estrutura matemática que descreve uma oscilação que descreve um objeto cerebral, defino um alfabeto de tipos ("types") funcionais (voluntário/automático) que pode ser universal para os seres humanos, imaginando existir uma equivalência da estrutura que descreve a oscilação e a estrutura dos a prioris cerebrais que servem de base para a formação da mente. A variação que tem feito muitos suporem que não há identidade alguma de tipo ("type-identity") poderia ser variação de parâmetros e de soluções no espaço de estados. A estrutura matemática geral (uma equação diferencial ordinária ou uma classe delas) seria o que garante a tese forte de que, injetando aquele código de barras em qualquer um de nós, dado o fato de termos passado pelo mesmo treinamento ontogenético e filogenético, estabelecer-se-iam as correspondências mentais adequadas.

3. Essa tese é bastante discutível. Claro está que haveria outras formulações para o problema que escapariam, em complexidade, da idéia deste trabalho. Entre elas cite-se o fato de que já nascemos com alguns programas pré-gravados que nos habilitam a ter uma pequena parcela de mente pré-instalada. Esses programas pré-gravados não são apenas formas (a prioris analíticos), mas contêm informação descritiva relevante (a prioris sintéticos, na terminologia kantiana e que gerou posteriormente um movimento de kantismo biológico). A esse respeito cf. Young, Z. Programs of the Brain e outros na nota do capítulo 15.

4. A concepção de sincronização externa (exossincronismo) e posteriormente interna (endo-sincronismo) pode remeter o leitor a dois corpos teóricos distintos. A sincronização externa é parente da idéia de affordances de Gibson e ressonância posterior. O indivíduo teria habilidades prévias (affordances) de estabelecer sincronia com os fatos do mundo. A noção de sincronização interna é de inspiração nas idéias atuais de sincronismo de assembléias neuronais. Cf. a respeito de exossincronismo Gibson, J. (1979) The Ecological Approach to Visual Perception. Boston: Houghton Mifflin.

5. Num certo sentido esse exemplo recria, em versão high-tech, o mito da caverna de Platão, segundo o qual vemos, dos objetos reais, apenas as sombras que a luz projeta na parede da caverna. O significado na formulação deste livro advém, no entanto, não de uma propriedade ideal, mas da convergência dinâmica de múltiplos osciladores que lentamente tendem a sincronizar, tanto na história do ser humano (filogênese) quanto na história de cada um de nós (ontogênese). A possibilidade de que essa ordem seja atingida pelo treino admite uma ordem pré-estabelecida que torna possível a convergência e sincronização das múltiplas redes conectadas. Nesse sentido haveria um platonismo que garante a existência das formas ideais, não triângulos, mas estruturas matemáticas que estabelecem a sincronização, aqui entendida no sentido amplo de tender a zero a diferença de suas trajetórias. No exemplo do estúdio há que se considerar ainda toda a gama de conjunções entre necessidade e convenção que está envolvida num processo de transmissão de dados. O modelo OSI de comunicação de dados admite 7 camadas, desde o nível físico, de enlace, de máquina virtual até os momentos em que se prescrevem certas convenções seguidas pelos usuários dessas redes. Esse exemplo, comum nas telecomunicações, pode nos servir muito de figura de discussão. Cf. sobre sincronização de redes: 1) Lindsey, W. :"Network Synchronization" in Proceedings of the IEEE - vol.73, No 10, 1985; 2) Lyndsey,W. (1972) Synchronization System in Communication and Control. N.J.:Prentice Hall. 3) sobre modelo OSI, cf. Tanenbaum, A. (1996) 3a edição Computer Networks. Prentice Hall. (Devo a José Roberto Piqueira a relação entre mente e modelo OSI).

6. Devo grande parte da alegoria desse exemplo baseado em telecomunicações a conversas com José Roberto Piqueira.

CAPÍTULO 8

1. Na verdade a situação é mais complicada, porque temos sistemas discretos e sistemas contínuos, mas, para efeito de simplicidade, pode-se conceber uma porta com dois estados: aberta ou fechada ou, então, uma porta com todos os estados que vão desde o aberto até o fechado, aí incluídos todos os jeitos de estar entreaberta. Também mais adiante falaremos de cérebro como implementando o digital e mente, o analógico; isso é uma simplificação, porque não pretendemos dizer que o analógico é um subconjunto do digital, como a mente é um subconjunto do cerebral. Queremos apenas dizer que, para situações mais grosseiras, cabe examinar apenas o valor 0 e o 1 (digital); para situações mais complicadas caberia examinar todas as nuanças entre 0 e 1 (analógico).

2. Cuidado aqui, porque, para variar, as coisas são espinhosas. No mais das vezes, quando falamos em mente, estamos dizendo que a situação descrita não é, basicamente, uma função mental, o que não impede que a mente possa executá-la, percebê-la ou estar ciente do que está sendo executado.

CAPÍTULO 10

1. Cf. o trabalho clássico Herbert Feigl: "The Mental and the Physical" em Feigl, H., Scriven, M., Maxwell, G. (ed) (1958) Minnesota Studies in the Phlosophy of Science vol II: Concepts, Theories and the Mind-Body Problem. (pp. 370-497). University of Minnesota Press. Nesse artigo clássico está uma das mais detalhadas descrições dos possíveis atributos que diferenciam o mental do físico - subjetivo (privado) x objetivo (público), não-espacial x espacial, qualitativo x quantitativo, capaz de propósitos x mecânico, mnêmico x nE3ao-mnêmico, holístico x atomístico, emergente x composicional, intencional x não-intencional.

2. Na verdade, não se prevê a força desejada em termos quantitativos, mas sim uma delimitação qualitativa de muita ou pouca força. A representação consciente se dá sobre qualidades não-captáveis por métodos quantitativos e sim por "cenários" mais ou menos nebulosos em que se descrevem qualidades como "muita" ou "pouca força". A intenção se dá sobre qualidades, enquanto o processo automático calibra quantidades genéricas e subprodutos parciais que regulam cada articulação e cada contração muscular durante um soco, por exemplo.

3. Isso ficará mais claro quando examinarmos técnicas de acesso ao cérebro. Tanto a imagem de atividade neuronal durante a representação consciente de um objeto (por exemplo o prato de macarrão) como a atividade elétrica embasante mudam com cada ocorrência do prato de macarrão. A atividade elétrica é acessada pelo EEG (eletroencefalograma) e a imagem da atividade pelo PET (tomografia por emissão de pósitron - capaz de detectar áreas de maior funcionamento cerebral e, portanto, responsáveis pela função naquele instante, colorindo-as posteriormente).

4. Pela repetição e modulação podem-se obter potenciais de ação mais ou menos pronunciados em amplitude. Esses fenômenos, chamados de long-term-potentiation (LTP) e long-term-depression (LTD), são vitais para se entender algumas peculiaridades da formação de memórias. Cf. a esse respeito qualquer tratado de neurofisiologia apontado na bibliografia. Recentemente provou-se que também a memória está ligada a processos freqüenciais: neurônios do hipocampo somente estabelecem a sincronização adequada, forjando com isso memória, para certos intervalos de potenciais. Isto é, não é apenas a repetição de uma certa media de potenciais gerando uma potencialização de longo termo, mas sobretudo essa repetição em certas freqüências inter-espículas de potencial de ação (que é o que estou chamando de código de barras). Cf. a respeito dessa última afirmação Tsukada, M., Aihara, T., Saito, H., Kato, H. (1996) "Hippocampal LTP Depends on Spatial and Temporal Correlation of Inputs" in Neural Networks, Vol. 9, No.8 (pp. 1357-1365). Esses circuitos hipocampais de sincronização têm papel fundamental na memória de curto termo, sucedâneo da memória volátil dos computadores. Também têm função de criar mapas cognitivos, particularmente de navegação no ambiente. Cf. a respeito de mapas cognitivos e hipocampo (a alcunha genérica é de cognição ambiental) Paillard, J. (ed) (1991) Brain and Space.Oxford University Press.

5. A hipótese de que não haja processo 1 em jogo não torna a doença psiquiátrica menos cerebral. Remete-a, no entanto, a circunstâncias "mentais" e conscientes de estilo de processamento. Além do mais, não há como excluir a presença de alguma contaminação de processos de tipo 1. Uma responsividade anômala de células cerebrais a níveis de glicose pode ser um dos pilares que sustentam a aparente natureza puramente mental de uma bulimia. Nesse caso, apenas o fator 1 é cerebral porque impossível de emergir na consciência. Atenção: a teoria desse livro centra na dinâmica o processo de controle no cérebro. Isso pode salvaguardar a morada da vontade e da liberdade enquanto mecanismo de controle. Não exclui o fato de que no futuro podemos ter cada vez maior conhecimento de mecanismos subcelulares que são responsáveis parcialmente por distúrbios de nível mental. Nesse caso, o que occorreria é que a psiquiatria, parafraseada num mecanismo de controle dinâmico de planos não-convergentes (no sentido de sistemas complexos que não encontram atrator para seu fluxo de soluções) ou não-completos (no sentido gödeliano), continuaria intocada enquanto neurodinâmica responsável pela ratificação ou inibição de planos motores e sensoriais que apresentam ambigüidade. Isso ficará claro ao longo do livro.

6. Não há dúvida da dificuldade do assunto. Freud jamais pretendeu que sua teoria se desgarrasse do cérebro. Era um neurologista e parte de sua obra inicial é uma tentativa de colocar no cérebro humano a dinâmica dos fatos psíquicos anormais. O que ocorre é que, no desenvolvimento posterior de sua obra, e com o uso que fizeram dela seus seguidores, a mente se tornou cada vez mais estrangeira ao cérebro humano, chegando ao cúmulo de se pensar em termos puramente psicanalíticos (de motivações inconscientes situadas na história do indivíduo) para explicar a gênese das doenças mentais. Por isso tomamos o cuidado de separar as duas posições e falamos que, de uma certa forma, a psicanálise implicou numa visão de mente desgarrada do cérebro. A teoria de Freud poderia ser dividida em duas etapas claras. O Freud da Primeira Tópica e do Projeto seria compatível com uma visão energética do cérebro, bastante aproveitável na estrutura dos argumentos que estou defendendo. Nessa Primeira Tópica, (o termo vem do grego topói, querendo dizer lugar dos conceitos ou de onde se extraem as premissas da argumentação) Freud propõe a divisão do psiquismo em três porções: inconsciente, pré-consciente e consciente. Na Segunda Tópica, ou segunda teoria do psiquismo, Freud divide em três outras entidades: id, ego e superego. A Primeira Tópica é consistente com algumas teorias aqui apresentadas, embora a carga de significado por trás das operações inconscientes e pré-conscientes e, sobretudo, os mecanismos psíquicos descritos, me parecem diferentes. O Freud da Segunda Tópica é aquele que estabelece uma clivagem entre o cérebro e a mente. Essa clivagem não é, em nenhum momento, uma negação de seu sítio cerebral, mas apenas uma hipótese de que as leis da mente são emergentes em relaçE3ao à leis cerebrais. Nesse sentido, todo crítico desavisado da doutrina freudiana deveria prestar atenção a dois fatos: primeiramente, a noção de mente enquanto programa e cérebro enquanto hardware é totalmente compatível com a Segunda Tópica; segundo, pode-se discordar da explicação de uma teoria, mas não da observabilidade (ou empiricidade) de alguns de seus conceitos. Termos teóricos, quando ocorrem numa teoria, sejam eles "quark" ou "fase anal", são elementos que devem ser verificados à luz da teoria, nunca isoladamente. Não há qualquer contra-senso numa teoria usar memória de trabalho e outra usar repressão como mecanismos possíveis. O que se mede em ciência é a verossimilhança, refutabilidade, previsibilidade e explicabilidade da teoria. A posição defendida neste livro seria parcialmente compatível com a Primeira Tópica. Cf. a respeito da obra de Freud as Obras Completas traduzidas para o português pela editora Imago. Cf. a respeito de termos psicanalíticos o excelente dicionário de termos: Laplanche, J., Pontalis,J. (1983) Vocabulário da Psicanálise. Livraria Martins Fontes Editora. Cf. a excelente tradução e notas de Osmyr Faria Gabbi Jr. pela Editora Imago do Projeto de uma Psicologia de Sigmund Freud (1995).

7. Cf. Vernant, J., Vidal-Naquet, P. (1981) Mythe e tragédie en Grèce ancienne. Paris: François Maspero. (pp. 43-74.)

8. Há uma dinâmica não-linear que descreve o crescimento do número de neurônios no cérebro dos animais. Isso é perfeitamente compatível com a idéia de uma transição abrupta de fase quando se chega a um certo acréscimo quantitativo. A isso se chama de valor de bifurcação no espaço de parâmetros. Um mínimo acréscimo quantitativo no valor desse parâmetro resulta em modificação dramática na topologia do espaço de estados (fluxo de soluções). Se o leitor pensar num pêndulo perceberá que, com atrito, maior ou menor, o pêndulo tenderá a parar. Mesmo para um atrito muito próximo de zero o pêndulo tenderá a parar. Quando se chega no valor zero o pêndulo não pára jamais. Por isso se chama o valor zero do parâmetro atrito de valor de bifurcação. Qualquer mínima alteração desse valor, para cima ou para baixo, altera dramaticamente o comportamento do sistema Cf. sobre função não-linear e encefalização; Finlay, B., Darlington, R. (1995) "Linked Regularities in the Development and Evolution of Mammalian Brains" in Science Vol.268 (pp.1578-1583). Chama a atenção que a existência de uma descrição através de sistema não-linear não somente explica o salto qualitativo através da passagem por uma valor de bifurcação de parâmetro, como também torna determinística a evolução do sistema.

9. A intencionalidade foi considerada como a "marca do mental". Embora o conceito venha da Idade Média, encontra em Brentano, no século XIX, sua formulação definitiva. A diferença crucial entre o mental e o físico seria devida ao fato de que o mental é capaz de: a) ter consciência de objetos existentes e inexistentes (cadeiras e centauros, por exemplo); b) tratar esses objetos através de modos mentais diversos: temer a cadeira é diferente de desejar a cadeira - ambos têm cadeira como objeto intencional e modos mentais-intencionais diversos; c) a capacidade de representação da mente humana não é explicável, no sentido de traduzível, por qualquer linguagem fisicalista - uma generalização típica das ciências econômicas que diga algo a respeito de "moeda" não encontra tradução numa formulação geral fisicalista. Moeda depende de crença e, portanto, são não-enumeráveis os objetos físicos que serviriam de "moeda". Ora, para que se garanta a redução de uma lei mental a uma lei física é necessário que: a) todos os princípios-ponte de conexão sejam também leis; b) que o domínio de explicação seja igual ou maior; c) que se preserve algum grau de sinonímia entre termos da antiga teoria e da nova; d) que a generalização na linguagem fisicalista não tenha objetos cujas características descritas na linguagem sejam seqüências não-enumeráveis do tipo a ou b ou c (moeda pode ser latão, ouro, platina ou papel, e assim sucessivamente). No caso das representações mentais é preciso ver que representação pode ser entendida apenas como substituição de um objeto por outro. A representa B. O mental entendido como representação é intencional por natureza e, portanto: a) carece de estrutura proposicional para expressar-se; b) carece de estrutura intencional, de modo intencional (desejo, crença, temor, intenção, etc.) e de objetos, existentes ou não, sobre os quais aquelas se debruçam. Definitivamente o conceito de intencionalidade está atado ao conceito de consciência, de mente não-redutível ao mundo físico, de representação no sentido intencional e de estrutura proposicional da linguagem que descreve esses objetos. Mais ainda: a lógica dos operadores intencionais é diferente das descrições simples: "O atual rei da França é François Miterrand" é proposição mas é falsa; "Paulo crê que o atual rei da França seja François Miterrand" pode perfeitamente ser verdadeira. Essa distinção entre o mental e o físico guindada pela noção de intencionalidade abriu outra grande vala no século passado. Passaram a distinguir claramente as ciências da natureza - explicáveis através de uma estrutura teórica científica - e as ciências da cultura - compreensíveis porque contendo análogos da mente, que veriam neles uma identificação com seus estados internos. Intencionalidade e o binômio explicação x compreensão são duas faces da clivagem radical que chega aos nossos dias entre o mental e o físico. Mesmo a tentativa de transformar a mente em software é compatível com essa formulação, porque não há redução possível das leis do software às leis do hardware. As redes neurais, embora dêem um passo na direção da redução, no que diz respeito ao modo como relacionam os objetos, mantêm intocado o estatuto mental puro desses mesmo objetos - símbolos ou subsímbolos. A tentativa desse livro caminha no sentido de formular uma hipótese geral sobre a qual possa haver reduE7ão de funções, não à maneira da neuropsicologia que relaciona funções/disfunções e lesões, mas calcando na sinalização cerebral um princípio suficiente para fazer, através das bifurcações, a partição do voluntário e do automático. Chamo essa forma de redução de "redução sindrômica de tipo" porque os tipos (ao contrário dos tokens) reduzidos seriam funções e não entidades ou teorias. As quatro grandes funções na redução sindrômica de tipo são o controle voluntário, o automático, o sonho e a psicose. Conhecê-las, significa criar-lhes uma plêiade de predicados - sinais e sintomas - e não definições estritas. Por isso, empresto a noção médica de "síndrome": conjuntos de sinais e sintomas que designam novos conjuntos que são compatíveis com diferentes doenças específicas. Uma insuficiência cardiaca congestiva (ICC) é uma síndrome caracterizada pelos seguintes sintomas e sinais: taquicardia, dispnéia (principalmente noturna, quando o indivíduo está deitado), hepatomegalia e edema de membros inferiores. Podem causá-la diferentes doenças, por exemplo infarto ou doença de Chagas. O controle voluntário e o automático seriam "síndromes-funções" que se detetam através de valores de bifurcação e instabilidade estrutural no plano dos sinais cerebrais que representam um determinado objeto simples ou complexo. Cf. a respeito de intencionalidade: Brentano, Franz (1874) Psychologie vom empirischen Standpunkt. Leipzig. Há diversas atualizações em inglês. Não conheço tradução em português. Sobre intencionalidade há vários trabalhos interessantes: 1) Searle, J. (1987) Intentionality : an essay in the philosophy of mind. Cambridge University Press. 2) Chisholm, R. (ed) (1960) Realism and the Background of Phenomenology. Illinois: Glencoe. 3) Dennett, D. (1987) The Intentional Stance. MIT Press (com uma tentativa de desfazer o caráter irredutível da intenção, transformando-a em interpretação de um modo de agir ou de uma disposição do sistema). Sobre o binômio explicação x compreensão e a separação entre ciências da natureza e da cultura, cf. Dilthey, W. (1980) Introducción a las Ciencias del Espíritu. Madri: Alianza Universidad. (tradução espanhola do original alemão). Sobre a redução sindrômica de tipo, cf. Del Nero, H., Maranca, A., Piqueira, J. (1997) "Topological Computation and Voluntary Control". Coleção Documentos IEA-USP, Série Ciência Cognitiva. Sobre teoria da redução, para uma bibliografia bastante extensa, cf. Del Nero, H. (1992) "Redução e Emergência". Coleção Documentos IEA-USP, Série Ciência Cognitiva.

10. A noção de departamento mental terceirizado se assemelha à reunião de elementos de mundos 1 e 3 de Karl Popper. Popper distingue um mundo 1 povoado por estados e objetos físicos: inorgânicos: matéria e energia do cosmos; biológicos: estrutura e ação de todos os seres vivos, cérebros humanos; artefatos: subtratos materiais da criatividade humana, dos instrumentos, das máquinas, dos livros, das obras de arte, da música. O mundo 2 é constituído pelos estados de consciência: conhecimento subjetivo e experiências de percepção, pensamento, emoções, disposições intencionais, memórias, sonhos e imaginação criativa. O mundo 3 é constituído pelo conhecimento no sentido objetivo: herança cultural codificada em substratos materiais (filosóficos, teológicos, científicos, históricos, literários, artísticos e tecnológicos) e sistemas teóricos (problemas científicos e argumentos crítcos). Cf. 1) Popper, K, Eccles,J. (1981) The Self and its Brain. Berlim: Springer International (p.359 e ss.). 2) Popper, K. (1975) Conhecimento Objetivo. op. cit.

11. Esse parágrafo contém enormes simplificações. É preciso entender que: a) proposições são sentenças bem construídas que, portanto, podem ser verdadeiras ou falsas; b) a lógica matemática prepara noções como as de função, argumento e valor, e também uma série de regras de inferência capazes de criar cadeias válidas, a partir de determinadas sentenças; c) tudo que há (no sentido de ter existência) pode ser expresso como elemento que substitui uma variável quantificada de uma sentença lógica (Quine); d) tudo que pode ser dito numa sentença quantificada pode ser computado por uma máquina de Turing (tese Church-Turing). Logo, o pensamento seria constituído de objetos que são expressos em sentenças quantificadas e estas podem gerar cadeias de inferência lógica através de leis lógicas ou sucedâneos das leis do pensamento. Esse processo pode perfeitamente ser replicado em máquinas de Turing, ou similares, de tal forma que não haja identificação exclusiva entre a mente e o cérebro humano. Cf. a respeito de inúmeros problemas de lógica: Kneale, W., Kneale, M. (1980) O Desenvolvimento da Lógica. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. Sobre proposições, função, argumento e valor: Frege, G. (1978) Lógica e Filosofia da Linguagem. São Paulo: Cultrix e Edusp. Sobre a existência de objetos e a quantificação de expressões: Quine,W (1974) La relatividad ontologica y otros ensayos. Madri: Editorial Tecnos. Sobre a tese de Church-Turing: Johnson-Laird, P. "How Could Consciousness Arise from the Computations of the Brain?" in Blakemore, C., Greenfield, S. (ed) (1987) Mindwaves. Oxford: Basil Blackwell. (pp 247-257). (Observação: do ponto de vista histórico, a tese de Quine é muito posterior ao desenvolvimento de Turing, Church e outros, porém, é tão importante sua qualificação de existência de algo - ontologia - como sendo a propriedade de substituir uma variável quantificada numa sentença lógica, que optei por inclui-la como uma das teses fundamentais no processo de transposição do mental-cerebral para o mental-computacional.)

12. A noção de máquina de Turing é crucial e bastante difícil. Inventada por Alan Turing em 1936, é um aparato computacional abstrato. Consiste de a) uma unidade de controle que pode assumir qualquer elemento de um conjunto finito de estados possíveis; b) uma fita dividida em quadrados, cada qual podendo estocar um símbolo de um conjunto finito de símbolos possíveis e c) uma "cabeça" de leitura e escrita que se move ao longo da fita, transmitindo informação da unidade de controle para a fita e vice-versa. A máquina computa através de uma seqüência de passos discretos. Seu comportamento num dado instante é completamente determinado pelo símbolo que está sendo lido pela cabeça de leitura e pelo estado da unidade de controle. À medida que escreve um símbolo, há uma mudança de estado da unidade que vai influenciar a geração do símbolo seguinte. O novo símbolo pode ser o mesmo do anterior, bem como é permitido, num dado passo, ficar no mesmo quadrado da fita ou reentrar no estado anterior. Certos estados e símbolos podem induzir a máquina a parar (conhecido como problema da parada da máquina de Turing). O programa de uma máquina de Turing define sua ação para as várias combinações possíveis de estados e símbolos. Esses programas podem ser apresentados em diferentes formatos: diagramas de transição de estado, linguagens similares à assembler, etc. A respeito de máquina de Turing, cf. Fischer, P. in Ralston, A., Reilly, E. (1993) Encyclopedia of Computer Science, N.I.: Van Nostrand Reinhold, (p.1379 e ss). O problema da parada da máquina de Turing está intimamente ligado a alguns teoremas de Gödel que mostram a inconsistência, indecidibilidade e incompletude de certos sistemas formais. Sistemas desse tipo seriam capazes de gerar sentenças no seu interior não sendo, no entanto, capazes de decidir sobre sua verdade ou falsidade. Ou, de maneira geral, sistemas impossibilitados de capturar uma porção significativa da matemática, usando para isso um número finito de axiomas. Essa impossibilidade mostra uma limitação fundamental do método axiomático. Na apresentação de Gödel, isso geraria um problema que requer um nível superior para ser resolvido, ou um metanível. O problema da parada diante de certas situações e a natureza indecidível de certas proposições formais apontadas por Gödel são similares. Vai daí que falaremos de parada da máquina de Turing e de incompletude e indecidibilidade mais ou menos como um mesmo problema. Fornecer um oráculo para a máquina de Turing (gerador aleatório de números), recorrer a um nível superior (meta-nível) ou asseverar a natureza não-algorítmica do processo (tese de Penrose) são soluções relacionadas ao problema da parada. Cf. a respeito de parada da máquina de Turing: Goldstine, J. in Ralston, A., Reilly, E. op.cit. (p.1404-1405). Também confira a respeito do problema de Gödel: Nagel, E., Newman, J. (1970) El Teorema de Gödel. Madri: Editorial Tecnos. Cf. a respeito de Gödel e sua relação com a máquina de Turing, o trabalho clássico de Lucas, J. "Mentes, Máquinas y Gödel" in Anderson, A. (1984) Controversia sobre mentes y maquinas. Barcelona: Tusquets Editores. (p.69 e ss). Sobre o problema da parada, sobre Gödel e sobre a formulação de uma teoria não-algorítmica da consciência cf. Penrose, R. "Mind, Machines and Mathematics" in Blakemore, C., Greenfield, S. (ed) (1987) Mindwaves. Oxford: Blackwell. (pp. 259-276). Sobre o trabalho original de Turing cf. 1) Turing, A. (1937) "On computable numbers, with an application to the Entscheidungsproblem" in Proc. London Mat. Soc. 2, 42. 2) Turing, A. (1950) "Computing Machinery and Intelligence" in Mind, 59.

13. A noção de "hardware" e de "software" já foi vista. De maneira sucinta, o "hardware" é a máquina (processador, memória) e o "sofware" (programa) é um conjunto de instruções que operam a máquina. De uma maneira esquemática, pode-se dizer que o "hardware" é um departamento concreto e que o "software" é um departamento virtual. A noção de pensamento enquanto computação é basicamente uma noção abstrata ou de departamento virtual. O "software" enquanto departamento virtual tem as seguintes propriedades: a) não se reduz à máquina, seja ela um cérebro ou um computador pensante; b) pode ser reprogramado; c) não precisa se sujeitar às leis físicas do cérebro ou do computador para ter suas leis próprias (no caso, leis lógicas). Embora essa noção esteja na base da inteligência artificial simbólica, cria uma dissociação indesejada entre leis mentais (ou software) e as leis cerebrais. Essa dissociação é chamada de funcional, existindo muitos argumentos em seu favor, como o da múltipla instanciabilidade: um mesmo programa pode ser rodado em diferentes arquieturas; a mente é um programa; logo, não é necessário que seja um cérebro que rode o programa mente. Por isso o cérebro e a mente teriam apenas, como já vimos em outra nota, uma identidade de token e não uma identidade de type. Esse tipo de dissociação é conhecido como monismo de essencias (cérebro e mente seriam da mesma substância), mas dualismo de predicados (as propriedades da mente seriam não-redutíveis ou explicáveis pelas propriedades do cérebro). Esse tipo de dualismo, mitigado pela aparência una de substância mas amplificado pela noção de emergência funcionalista e dualismo de predicados, é tão perigoso, do ponto de vista epistêmico, quanto o dualismo de essências. Ainda mais, deixa muito pouco aparelhado um projeto de uma psicopatologia de base cerebral, porém com ênfase também nos aspectos de significado e articulação das formas e dos conteúdos mentais (que é a tese central deste livro). Cf. a respeito de funcionalismo, entre outros: 1) Putnam, H. (1975) Mind,Language and Reality, Philosophical Papers vol 2. Cambridge University Press. 2) Putnam, H. (1988) Representation and Reality. MIT Press. 3) Lycan, W. (ed) (1990) Mind and Cognition: A Reader. Oxford: Blakwell. 4) Block, N. (ed) (1980) Readings in the Philosophy of Psychology. vols.1,2. Harvard University Press.

CAPÍTULO 11

1. Cf. sobre o behaviorismo, Skinner, B.(1982) Sobre o Behaviorismo. Editora Cultrix e Edusp. Para algumas considerações acerca da falência dessa corrente, cf. Del Nero, H. "Do Behaviorismo às Redes Neurais" in Abrantes, P. (org.) (1993) Epistemologia e Cognição. Brasília: Editora UnB (pp. 147-169).

2. O programa capaz de provar um teorema matemático é de autoria de Allen Newell e Herbert Simon. Apresentado no Simpósio de Teoria da Informação em 1956, chamou-se de "Logic Theory Machine". Cf. a esse respeito, Gardner, M. (1985) The Mind´s New Science: A History of the Cognitive Revolution. Nova Iorque: Basic Books (p. 28). Cf. também o livro posterior dos autores: Newell, A., Simon, H. (1972) Human Problem Solving. Englewood Cliffs: Prentice Hall.

3. Cf. a respeito da distinção entre pensamento (modo cognitivo), sensação (modo emocional) e vontade (modo conativo), Ryle, G. (1963) The Concept of Mind. Penguim Books (p. 61 e ss).

4. Cf. a respeito dessa prescrição, conhecida como "a navalha de Ockham", segundo a qual se devem eliminar as categorias desnecessárias: William of Ockham (filósofo da Idade Média que viveu aproximadamente entre 1285 e 1349) in Aquino, Alighieri, Scot e Ockham (1985) Os Pensadores. Editora Abril (pp. 347- 412). Cf. a respeito do princípio de simplicidade de Galileu em sua obra Il Saggiatore, Geymonat, L. (1986) Galileo Galilei. Barcelona: Ediciones Peninsula (pp.109-153). Cf. a respeito de Galileu e o nascimento da ciência moderna, Koyré, A. (1973) Études d´Histoire de la Pensée Scientifique. Paris: Gallimard (pp.167-274).

5. Sobre arquitetura von Neumann, devem-se consultar algumas indicaE7ões. Cf. Haugenland, J. (1987) Artificial Intelligence: The Very Idea. MIT Press (pp.140-146). Cf. também o trabalho do próprio autor, von Neumann, J. (1958) The Computer and the Brain. New Haven: Yale University Press.

6. Um dos mais interessantes trabalhos que lança a distinção clara entre nível da computação, nível do algoritmo e nível da realização física é de David Marr. Cf. Marr, D. (1982) Vision. N.I.: W.H.Freeman and Co. (p.24 e ss). O nível da computação basicamente se refere ao objetivo da computação e à lógica que deve ser utilizada para alcançá-lo; o nível da representação e do algoritmo se referem a como essa teoria computacional pode ser implementada, particularmente no que tange à representação da entrada e da saída e o algoritmo responsável pela mediação entre ambas. O nível da implementação física (hardware) diz respeito a como essa representação e algoritmo podem ser fisicamente realizados. A noção de algoritmo deve ser precisamente entendida: "por algoritmo entenda-se um procedimento mecânico-matemático completo que é bem definido na operação e que pode ser aplicado automaticamente sem decisões adicionais, juízos ou decisões aleatórias" in Johnson-Laird op.cit. (p.260).

7. Cf. a respeito da teoria da decisão, Resnik, M. (1987) Choices: An Introduction to Decision Theory. Minneapolis: Univeristy of Minnesota Pres. Especificamente sobre teoria da decisão normativa, cf. von Neumann, J. Morgenstern, O. (1944) Theory of Games and Economic Behavior. Princenton University Press. Cf. sobre teoria da decisão descritiva, Kahneman, D., Slovic, P., Tversky, A. (ed) (1982) Judgment under uncertainty: Heuristics and biases. Cambridge Univeristy Press.

8. A idéia de que sinapses alterem seus pesos de conexão, pelo reforço e aprendizado, deve-se inicialmente a Donald Hebb (cf. nota 3 do capítulo 6). Cf. Hebb, D. (1948) op. cit.. Essa noção de sinapse hebbiana está intimamente ligada à concepção de assembléias de neurônios que respondem com maior ou menor fidedignidade a um estímulo (place-coding). Como vimos, nesses casos a idéia é que a codificação temporal expresse apenas uma maior ou menor representividade do estímulo em relação à área que está em atividade. A noção de codificação temporal genuína não é compatível com a sinapse hebbiana porque o código está nos intervalos inter-espículas (estatística de 2a ordem) e não na taxa média de disparo (estatística de 1a ordem). A alteração de peso sináptico, nesses casos, é responsável apenas pela mudança de ganho de malha do sistema, alterando, quando for parâmetro de bifurcação, a topologia no espaço de soluções. Essa maneira de enxergar o problema é fracamente compatível com a sinapse hebbiana, embora aceite sua importância enquanto parâmetro numa equação diferencial não-linear que descreve a dinâmica da assembléia neuronal. Para mecanismos de memória e outras modulações devem-se considerar ainda fatores de variação intra-espícula tais como LTP e LTD.

9. Cuidado: nesse caso é analógico porque varia de -m a +m, não se tratando de um simples 0 ou 1. No caso do neurônio real, visto no início deste livro, o potencial de ação não variava de tamanho. O carater analógico era, então, obtido não pelo tamanho do potencial (como neste caso), mas pela freqüência de potenciais e intervalo entre eles (código de barras, etc). No disparo de vários potenciais de a 7ão com intervalos diferentes entre si há, na verdade, uma série de freqüências. Fazendo-se uma trans-formação de Fourrier pode-se colocar num histograma a distribuição dessas freqüências todas. Veremos mais adiante que se podem definir intervalos de freqüências para que haja a sincronização nesse intervalo onde estão presentes muitas freqüências. Isso é fundamental, porque a sincronização na freqüência ou na fase não exige que haja apenas uma freqüência em jogo. Além do mais, se houvesse somente uma freqüência no conjunto de potenciais de ação não haveria medida de intervalo entre eles que se poderia captar por uma estatística de 2a ordem, o que invalidaria o argumento do código de barras e faria o modelo voltar para a média de disparos, que medem a prototipicidade do estímulo face à pré-programação daquele campo receptivo.

10. Repare que no caso de dois neurônios de entrada e um de saída a rede pode processar também conectivos lógicos. A diferença de uma rede neural em relação a uma arquitetura digital de tipo simbólica, então, não reside apenas no processamento digital (a rede neural perfaz tanto o digital quanto o analógico), mas na ausência de programa separado do nível de processamento, a ausência de um processador central que controle os passos da rede e a presença de dados e memórias distribuídos pelas conexões e não estocados em endereços fixos.

11. Num primeiro momento isso foi considerado uma diferença essencial entre as arquiteturas simbólicas e as conexionistas. As simbólicas não seriam capazes de aprender, estando todas as regras ali pré-fixadas. Isso, de um tempo para cá, não é mais verdade, porque também as arquiteturas simbólicas são capazes de aprender (chamados sistemas de produção). Cf. a respeito de arquiteturas simbólicas capazes de aprender, a arquitetura ACT* de John Anderson in Anderson, J. (1983) The Architecture of Cognition. Harvard University Press.

12. Há diversas classificações para o tipo de supervisão e para o tipo de algoritmo que corrige pesos minimizando o erro. Os modos de retroação (feed-back) sobre a rede podem ser divididos em supervisionados (externos) e não-supervisionados (não-externos). Entre os supervisionados externos distinguem-se os não-monitorizados (não-internos) e os monitorizados (internos). Entre os não-supervisionados (não-externos) distinguem-se os monitorizados (internos) e não-monitorizados (não-internos). Essa classificação é fundamental para que não se façam confusões entre rede neural e auto-organização (caso em que não há supervisão externa) e, também, ao caso particular em que, havendo um algoritmo de organização interna, a auto-organziação está também em xeque pelo fato de haver uma norma que organiza a desorganização. A classificação acima pode ser encontrada em Chuchland, P., Sejnowski,T (1992) The Computational Brain. MIT Press (p.98). Sobre tipos de redes (26 são citados) e aplicações mais freqüentes, cf. a tabela 1 na p.43 de Arbib, M. (ed) The Handbook of Brain Theory and Neural Networks. MIT Press. Sobre a figura 40 onde se descreve o método de criar uma bacia de atração num cenário de minimização local (a global é normalmente impossível) de energia, cf. o trabalho clássico: Hopfield, J. (1982) "Neural networks and physical systems with emergent collective computational capabilities" in Proceedings of the National Academy of Sciences 79: 2554-2558.

13. Essa noção de subsímbolo aparece num trabalho de Smolensky e creio ser criticável. Um pedaço de símbolo, uma propriedade de uma sala de estar (símbolo) como a de ter móveis (subsED¡mbolo), ainda é um símbolo. O que define um símbolo, a meu ver, é sua capacidade de ser descrito através de uma proposição. O fato de ser maior ou menor, todo ou parte, predicado de predicado ou não, consistiria em outro problema. Há, na comunidade de redes neurais, quem afirme que se poderia partir um subsímbolo até um limite inimaginável. Isso me parece errado, porque só se poderia parti-lo até onde as proposições captassem a sua descrição. Ora, meu argumento é que, se são proposições, o símbolo e o subsímbolo ainda são entidades mentais interpretadas e interpretáveis na linguagem ordinária e, portanto, distantes do modo cerebral de forja de objetos e relações. A dinâmica cerebral que proporei ao longo do livro tenta superar esse impasse. Cf. sobre subsímbolo, Smolensky, P. (1988) "On the proper treatment of connectionism" in Behavioral and Brain Sciences 11, 1-74. Para uma crítica ao conexionismo, cf. Fodor, J.e Pylyshyn, Z. (1988) "Connec-tionism and Cognitive Architecture: a critical analysis" in Cognition 28: 3-72.

14. Cuidado, porque também o processamento paralelo não é sinônimo de rede neural. Embora a maior parte delas utilize processamento paralelo e distribuido, as redes semânticas podem utilizar processamento serial. Também o processamento serial não é exclusivo das arquiteturas simbólicas, como vimos, podendo haver arquietura digital com vários processadores em paralelo, processando cooperativamente, sob o comando de um programa.

15. A memória de trabalho teria uma capacidade finita, como se fosse a memória RAM de um computador comum. No seres humanos parece haver um número mais ou menos preciso que descreve a capacidade de armazenar símbolos (de qualquer tamanho) na memória de trabalho. Esse número de "cabines" disponíveis parece ser da ordem de 7 (mais ou menos 2). Cf. George Miller. Cf. Miller, G. (1956) "The Magical Number Seven, Plus or Minus Two: Some Limits on Our Capacity for Processing Information" in Psychological Review 63: 81-97.

16. A obra de Noam Chomsky é vastíssima. A crítica que empreende ao behaviorismo (nos primórdios da ciência cognitiva) advém da incapacidade de se condicionar uma pessoa para reconhecer todas as proposições bem-construídas da língua. Se somos capazes de reconhecê-las deve haver um sistema a priori, uma capacidade inata para a linguagem, que nos habilita a fazê-lo independentemente de exposição. A contribuição incial de Chomsky está em "Three Models of Language" em Teoria da Informação de 11/11/ 1956 no Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT) (cf. a citação em Gardner, H. op. cit. p.29). Outro trabalho de Chomsky com versões mais completas de suas idéias: Chomsky, N.(1985) Règles et Représentations. Flammarion.

17. A noção de intencionalidade e de capacidade de manipulação semântica, isto é, de compreensão do que se está processando, é fundamental. John Searle critica a noção de mente como computação (no sentido de IAS) porque, no caso, a mente, como o programa de um computador, seria apenas capaz de manipular regras sintáticas. Embora Searle não seja um dualista, afirma que compreensão e semântica são propriedades do tecido cerebral. Não explica que propriedades seriam essas e que forma existiria de replicá-las. Da forma como apresenta o argumento, pode sofrer a crítica de um chauvinismo cerebralista. Concordo com a crítica à noção de manipulação sintática destituída de semântica. Tanto intencionalidade quanto semântica são propriedades do cérebro humano (exclusivas, até o presente momento) ao gerar mentes e, se devidamente abstraídas através do código correto, que é o analógico, e com outras implicações explicadas ao longo do livro, poderão ser replicadas em outros meios físicos, artificiais e quiçá também na interação cultural (onde já estão presentes). Cf. Searle, J. (1984) Minds, Brain and Science. op. cit. (p.41).

18. A idéia é simples. Quando um sistema gera uma sentença que não se pode provar ser verdadeira ou não (alguns sistemas não teriam esse problema e há relações disso com a consistência, recursividade, etc.), então, apela-se para um sistema em outro nível, em que se resolveria o problema. Isso se chama de resolver na metalinguagem um problema da linguagem ou de resolver num meta-nível um pro-blema do nível que está exibindo indecidibilidade e parada. A concepção de que a mente pudesse ter lançado mão desse artifício para provar certas coisas é defensável, porém, não são problemas complexos que estão no seio dessa discussão; são problemas bem delimitados. Aquele leitor que imagina que a existência de Deus é um desses problemas insolúveis e que o apelo ao texto bíblico serviria de metanível não terá entendido a natureza do problema. A questão fundamental é que sabemos que uma sentença é verdadeira e, ao mesmo tempo, o sistema que gerou não pode provar isso. Ou, de maneira similar, ocorre parada nas etapas computacionais que estão computando esse problema. Pois bem, pode-se, ainda assim, imaginar que a classe de computações que nosso cérebro realiza para forjar a nossa mente (e que não percebemos no palco consciente) contém porções indecidíveis. Tais porções poderiam, talvez, ser resolvidas pelo apelo à comunicação e à consciência (enquanto redescrição).

18. Como se verá mais adiante, há conceitos precisos concernentes a caos, bifurcações, estabilidade estrutural e topologias. A existência de um valor de bifurcação no espaço de parâmetros enseja uma mudança brusca na estrutura do espaço de estados. Essa guinada topológica é responsável pela alteração qualitativa do comportamento das soluções do sistema. Analisar sinais elétricos codificados em conjuntos de freqüências pode nos possibilitar enxergar situações de estabilidade estrutural (valor ordinário de parâmetros) e instabilidade estrutural (valor de bifurcação). Bifurcações podem ser de vários tipos. Há uma bifurcação de ponto de equilíbrio, como no caso do pêndulo, que muda radicalmente de comportamento topológico na vizinhança do valor zero para o atrito. Quando zero, temos uma série de trajetórias do tipo centro no espaço de estados, isto é, para quaisquer condições iniciais o pêndulo oscila harmoniosamente, e de forma auto-sustentada, indefinidamente. Para valores muito baixos de atrito positivo, temos uma lenta degradação da trajetória de tipo centro convergindo para um ponto assintoticamente estável. Para mínimos valores negativos de atrito, o comportamento das soluções tende ao infinito. Há ainda, por exemplo, bifurcações do tipo "flip" em que o sistema, para valores ordinários, oscila em período 1 e, quando passa pelo valor de bifurcação, começa a oscilar em período 2. Uma sucessão dessas bifurcações é uma das rotas para o caos (duplicação sucessiva de período). Embora afirmar que a uma bifurcação pode corresponder a um chaveamento no nível mental (no caso da hipótese deste livro, passar do automático para o voluntário) seja uma hipótese, em princípio verificável, devem-se colocar alguns reparos na sua testabilidade: a) em primeiro lugar deve haver muito mais bifurcações no sistema que alterações discretas de estado (consciente e não-consciente); b) segundo, a deteção de bifurcações depende de uma estimativa da estrutura que descreve o sistema, o que é bastante difícil, dadas as múltiplas conexões deste com os outros. No limite, o cérebro se comporta como estrutura quase toda conectada. Caos, em princípio, não teria relação estrita com bifurcação e estabilidade estrutural. Cf. a respeito de estrutura omniconectada (quase toda conectada): Miller, R. (1981) Meaning and Purpose in the Intact Brain: A philosophical, psychological, and biological account of conscious processes. Nova Iorque: Oxford University Press. Cf. a respeito de caos e bifurcações no cérebro: 1) Xie, M., Pribram, K., King ,J. "Are Neural Spike Trains Deterministically Chaotic or Stochastic Processes?" in Pribram, K. (ed) (1994) Origins:Brain and Self Organization. Lawrence Erlbaum Ass. (pp. 253-267). Cf. na mesma obra, Pribram,K. (ed) op. cit., Fahrat, N., Eldefrawy, M., Lin, S. "A Bifurcation Model of Neuronal Spike Train Patterns: A Nonlinear Dynamic System Approach" (pp. 396-433). Finalmente, cf. na mesma obra, Segundo, J., Vilbert, J., Pakdaman, K. Stiber. M., Martinez, O. "Noise and the Neurosciences: A Long History, a Recent Revival and Some Theory" (pp.299-331). Cf. também a importante contribuição de Walter Freeman sobre caos no sistema olfatório: Freeman,W. "Tutorial on Neurobiology: from single neurons to brain chaos" in International Journal of Bifurcation and Chaos, vol. 2, No 3 (1992). Cf. a respeito de teoria do caos o excelente livro Fiedler-Ferrara, N., Cintra do Prado, C. (1994) Caos: uma introdução. São Paulo: Editora Edgard Blücher.Sobre os artigos seminais que deram origem à hipótese de sincronizações subjazendo à consciência, cf. por exemplo Engel, A. et. al. (1992) "Temporal Coding in the Visual Cortex: new vistas on integration in the nervous system" in Trends in Neuroscience, Vol. 15, No. 6, (pp. 216-226). Sobre algumas aplicações de teoria do caos em biologia, cf. Yang, W. et. al. (1995) "Preserving Chaos: Control Strategies to Preserve Complex Dynamics with Potential Relevance to Biological Disorders" in Physical Review E, vol. 51, No 1, (pp. 102-110).

19. Uma outra classe de considerações é uma especulação: talvez o cérebro seja uma máquina analógica e a mente que dele brota seja descrita, com muita propriedade, através de linguagens que recrutam concepções discreto-digitais e algorítmicas. O problema da parada e da completude seriam, assim, defecções que surgem do estilo de análise de tipo "sistema formal baseado em algoritmos". Não seria uma limitação inerente ao cérebro, que é analógico, mas inerente a um recorte discreto-digital algorítmico que se faz dele. A solução do problema da parada através de máquinas analógicas tem sido proposta por alguns lógicos, entre eles Newton da Costa. Se o analógico representa um caso que resolve o problema da parada, creio escapar dos limites desse trabalho, tocando em pontos extremos da matemática e da lógica que não sou de julgar. Talvez essa id 9ia seja apenas pauta para discussões futuras.

20. Cf a respeito da tese da não-algoritmicidade do processamento consciente: 1) Penrose, R. (1994) Shadows of the Mind: a Search for the Missing Science of Consciousness. Oxford University Press. 2) Hameroff, S. Kaszniak, A., Scott, A. (ed) (1996) Toward a Science of Consciousness. MIT Press.

21. O leitor deverá estar atento porque há uma área de neurodinâmica quântica, diferente dessa hipótese de não-algoritmicidade e microtúbulos. Karl Pribram se utiliza de um ferramental matemático de física quântica e de teoria da informação de Gabor para analisar sua hipótese holonômica de cérebro. Nesse caso, prefiro chamar de dinâmica quântica instrumentalista, em lugar da anterior, que chamaria de essencialista. Cf, Pribram, K. (1991) Brain and Perception: Holonomy and Structure in Figural Processing. Lawrence Erlbaum Associates.

22. Jerry Fodor supõe que para processar o pensamento deve haver uma estrutura profunda de objetos e relações - uma linguagem do pensamento. Sua concepção de módulos para a mente é essencialmente proposicional, sobre os quais se debruçariam as regras. Admite, no entanto, que dentro de cada módulo possa haver processamento de tipo associacionista, de tipo rede neural. Cf. a esse respeito Fodor, J. (1987) The Modularity of Mind. Cambridge: MIT Press.

23. Cf. a respeito de algoritmo genético, a obra de seu idealizador:1) Holland, J. (1992) Adaptation in Natural and Artifcial Systems. MIT Press. 2) Holland, J., Holoyak K., Nisbett, R., Thagard, P. (1989) Induction: Processes of Inference, Learning and Discovery. MIT Press. 3) Holland, J. (1995) Hidden Order: How Adaptation Builds Complexity. Addison Wesley Publishing.

24 . Cf. por exemplo 1) Kohonen, T. "Automatic Formation of Wavelet - and Gabor Type Filters in Adaptative Subspace SOM" in Pribram, K., King, J. (ed) (1996) Learning as Self-Organization. Lawrence Erlbaum Associates (pp. 223-232); 2) Murray, J. (1993) Mathematical Biology. Springer-Verlag; 3) Abeles, M (1991) Corticonics: Neural Circuits of the Cerebral Cortex. Cambridge University Press; 4) Aertsen, A. (ed) Brain Theory: Spatio-Temporal Aspects of Brain Function. Amsterdam: Elsevier. 5) Rieke, F., Warland, D., van Steveninck, R., Bialek, W. (1997) Spikes: Exploring the Neural Code. MIT Press.

25. Cabe citar aqui obras que revivem o ideal de primeira metade do século de tentar localizar padrões fundamentais na dinâmica de sinal elétrico cerebral (EEG e outras técnicas similares, tais como MEG, brain mapping, potencial evocado, etc.). Cf. 1) Nunez, P. (1995) Neocortical Dynamics and Human EEG Rhytms. Oxford University Press. 2) Wong, P. (1991) Introduction to Brain Topography. Plenum Press. 3) Basar, E., Bullock, T. (ed) (1992) Induced Rythms in the Brain. Boston: Birkhäuser; 4) Pantev, C., Elbert, T., Lütkenhöner, B. (ed) (1993) Oscillatory Event-Related Brain Dynamics. Plenum Press - NATO ASI Series. Oscilações e sincronismo de populações neurais podem cumprir as seguintes funções (o que se pode depreender através de uma leitura extremamente cuidadosa desses diferentes trabalhos): a) podem ser o meio de criar relógios internos de marcação de janelas temporais, fundamentais para a marcação da percepção e para a unificação dos processamentos modulares discretos; b) podem funcionar como portas ou pontes de acesso da informação dos relês talâmicos para o córtex associativo; c) podem funcionar como mecanismo de memória; d) podem servir de substrato para a consciência; e) podem servir de meio para a sincronização de expectativas oscilatórias corticais e determinados "candidatos" subcorticais (mecanismo de atenE7ão).

26. Cf. a respeito de sistemas especialistas, por exemplo, Chi, M., Glaser, R., Farr, M. (ed) (1988) The Nature of Expertise. Lawrence Erlbaum Associates.

27. Cf. Shannon, C., Weaver, W. (1949) republicado em (1963) The Mathematical Theory of Communication. University of Illinois Press.

28. Cf. Gabor, D. (1946) "Theory of Communication" in Journal of the Institute of Electrical Engineers, 93, 429-441.

29. Cf. sobre cibernética: 1) Wiener, N. (1948) Cybernetics, or Control and Communication in the Animal and the Machine, traduzido e editado em espanhol (1985) Cibernetica: o el Control y Comunicacion en Animales y Maquinas. Barcelona: Turquets Editores; 2) Ashby, R. (1970) Introdução à Cibernética. São Paulo: Editora Perspectiva. 3) Para uma visão da ciência cognitiva como continuação da cibernética, cf. Dupuy, J. (1996) Nas Origens das Ciências Cognitivas. São Paulo: Editora da Unesp.

30. Cf. Prigogine, I. (1980) From Being to Becoming: Time and Complexity in the Physical Sciences. Nova Iorque: W. H. Freeman and Company.

31. Agredeço ao matemático Paulo Blinder por sugestões nesse tópico. Cf. Nayfeh, B. "Cellular Automata for Solving Mazes" in Cognitive Computing: Dr. Dobb´s Jounal (Fevereiro 1993).

32. Cf. sobre criticalidade auto-organizada, Bak, P. (1996) How Nature Works: the science of self-organized criticality. Nova Iorque: Copernicus, Springer-Verlag New York Inc.

33. Cf. Haken, H. Stadler, M. (ed) (1990) Synergetics of Cognition. Berlim: Springer-Verlag.

34. Cf. 1) Bertalanffy, L. (1950) "An Outline of General System Theory" in The British Journal for the Philosophy of Science, vol.I., No. 2; 2) Bertalanffy, L. (1973) Théorie Générale des Systemes. Paris: Dunod.

35. Cf. Edelman, G. (1987) Neural Darwinism: The Theory of Neuronal Group Selection. Nova Iorque: Basic Books.

36. Cf. a respeito de vida artificial, Langton, C. (1996) Artificial Life: an overview. MIT Press. Cf. especificamente a respeito de computação usando mecanismos intracelulares, particularmente o AMP cíclico,: Marder, E. (1996) "Computing with cyclic AMP" in Nature vol. 384, (pp.113-114).

37. Cf. a respeito desse modelo 1) Del Nero, H., Maranca, A., Piqueira, J. (1997) op. cit. 2) Del Nero, H. (1997) Computação topológica e controle voluntário em arquiteturas naturais e artificiais. (no prelo).

CAPÍTULO 12

1. Cf. a respeito desses números estatísticos: 1) Gentil Filho, V. "Manicômio, asilo e hospital" no jornal Folha de São Paulo de 26/09/95 (p.3); 2) sobre as perdas americanas apenas com custos indiretos, resultantes da queda de produtividade devida a depressões, cf. Greenberg, P., Filkenstein, S., Berndt, E. "O custo invisível das doenças no trabalho" em Revista Exame, Ed. Abril. 28/02/96 (pp. 86-87); 3) Sobre programas americanos de alerta à população sobre doenças mentais e o modo de conduzir-se diante delas, cf. Dimenstein, G. "A ignorância faz mal para a cabeça" no jornal Folha de São Paulo de 19/05/96 (p.1-18); 4) Russo, N. "Depressão tira funcionário do trabalho" em Folha de São Paulo 15/09/96 (p.3-14);

2) Cf. a respeito de limitações à vontade irracional, por exemplo, notícia de o Estado de São Paulo em 01/09/95 "Hospital obtém liminar contra paciente que recusa tratamento" de autoria de Happy Carvalho: "Rio: - A paciente S.B.R de 28 anos, internada há 17 dias no Hospital..., recusa atendimento médico. Apesar de sofrer de problemas renais crônicos, ela não quer passar por sessões de hemodiálise. A diretora do hospital...moveu uma ação judicial, cuja liminar foi concedida esta semana pelo juiz Ruyz Athayde Alcântara de Carvalho, da 1a Vara Cível da Defensoria Pública, para que o tratamento seja mantido independente da vontade da paciente" (grifo meu). A vontade pode ser contrariada diante da irrazoabilidade e irracionalidade auto ou heterodestrutiva. Ora, a patologia psiquiátrica é o ponto limite dessa situação. Será que alguém que está perto de suicidar-se ou de agredir a outrem pode, pelo exercício da vontade, recusar o tratamento, aludindo para isso qualquer opinião e contrapondo-se ao atual estágio de conhecimento médico a esse respeito? Claro que não, embora muita gente faça vistas grossas para situações semelhantes em atitude ignorante e preconceituosa face ao cérebro, à mente e à psiquiatria.

CAPÍTULO 13

1. Cf. a respeito desse processo, conhecido como "Sladev Trial", Milner, R. (1996) "Charles Darwin and Associates, Ghostbusters" in Scientific American, outubro de 1996 (pp.72-77).

CAPÍTULO 14

1. Cf. a esse respeito, Popper, K., Eccles, J. (1981) The Self and its Brain. Springer Verlag. (p.313 e ss). Cf. também, Marks, C. (1981) Commissurotomy, Consciousness and the Unity of Mind. MIT Press.

2. Essa concepção já foi vista em capítulos anteriores. Diz que a mente computa sobre transições de fase, ou sobre alterações qualitativo- topológicas, enquanto que o processamento nas regiões ordinárias de parâmetros, ou fora da transição de fase, é incumbência estritamente "cerebral" não-consciente. Essa hipótese está de acordo com o modelo que proponho de processamento cerebral de tipo estável estruturalmente e de recrutamento de consciência quando há a necessidade de eliminar a ambigüidade em algo, p. ex. numa região de bifurcação no espaço de parâmetros. Nesse caso não precisaríamos necessariamente da distinção digital e analógica para fazer a diferenciação, uma vez que há sistemas de tempo discreto, equações de diferenças, que podem apresentar estabilidade e instabilidade estruturais e são, ao mesmo tempo, discretos e digitais, não no sentido logicista da IAS, mas no sentido de serem algoritmizáveis.

3. Sobre gestalt, cf. por exemplo Kokfa, K. (1975) Princípios de Psicologia da Gestalt. São Paulo: Editora Cultrix e Edusp.

4. Cf. por exemplo um artigo acessível e ilustrativo Horgan, J. (1995) "From Complexity to Perplexity" in Scientific American, vol.272, No.6, junho de 1995, pp.74-79. Cf. ainda uma forma mais densa: Morowitz, H., Singer, J. (ed) (1995) The Mind, The Brain, and Complex Adaptive Systems. Santa Fé Institute Studies in the Sciences of Complexity. Addison-Wesley.

5. Cf. Shallice, T. (1988) From Neuropsychology to Mental Structure. Cambridge University Press (pp. 328-352).

6. Essa prescrição do "acho que" ou "parece que" remonta à escola dos céticos gregos (pirronismo). Como se pode provar a equivalência dos argumentos a favor e contra algo (equipolência), prescrevem os céticos que se deve suspender o juizo último sobre a verdade ou falsidade das coisas, guiando-se apenas pelo que parece (fenômeno). O cético, ao contrário de se entregar ao imobilismo pela ausência de verdade última, prescreve que se devem seguir os usos e costumes. As teorias da verdade pragmáticas afirmam que há verdade provisória num determinado contexto e até que essa verdade (ou teoria) seja substituída por outra de maior abrangência, etc. O fazer científico, de maneira geral, é uma afirmação hiperbólica da verdade pragmática, devidamente ancorado num "parece que" que, ao contrário de expressar hesitação, afirma algo, deixando aberto o caminho para que novas teorias venham substituir, pela dinâmica da descoberta, as atuais formulações. Cf. a respeito de ceticismo, Popkin, R. (1983) La Historia del Escepticismo Desde Erasmo Hasta Spinoza. Mexico: Fondo de Cultura Economica.

7. A computação exaustiva de hipóteses e a emergência na consciência de significados negativos está bem documentada num experimento psicológico simples. Apresentam-se pares de palavras numa tela para que o paciente leia em voz baixa. Em seguida, aparece um ponto na tela. O paciente deve apertar um botão o mais rápido possível, assim que avistar o ponto. Esse ponto pode aparecer no local em que havia uma palavra de significado ameaçador ou no local em que havia uma palavra neutra ou positiva. O tempo de reação de aperto do botão no paciente ansioso é muito menor nas situações em que o ponto aparece no local em que estavam palavras ameaçadoras. Cf. a esse respeito, Navon, D., Margalit, B (1983) "Allocation of Attention According to Informativeness in Visual Recognition". Quarterly Journal of Experimental Psychology, 35(a), (pp. 497-512). Cf. ainda uma ampliação desse teste aludindo à hipótese de que os ansiosos tenham esquemas prévios que privegiam processamento negativo, Mathews, A., MacLeod, C. (1985) "Selective Processing of Threat Cues in Anxiety States". Behavior Research and Therapy, 23, (pp. 563-569) e, ainda, Mathews, A., MacLeod,C. (1986) "Discrimination of Threat Cues without Awareness in Anxiety States". Journal of Abnormal Psychology, 95, (pp. 131-138).

CAPÍTULO 15

1. A idéia de introjeção de significados é antiga, porém, há que se notar a presença de dois elementos distintos: não é apenas uma tábula rasa em que a linguagem e a interação escrevem suas categorias, nem é um a priori sintético (no sentido kantiano) que define os semitons da introspecção e de sua redescrição lingüística. As condições de possibilidade de algo ser introjetado, a predisposição prévia para isso, bem como o estilo de processamento do cérebro humano, unido à capacidade inata para a linguagem, fornecem os elementos a priori para a submersão futura na comunidade dos falantes. A introjeção se dará, nesse segundo momento, graças ao artifício da estabilização dinâmica do significado. Não é platônica a idéia, porque não se ativa uma "lembrança" já existente de significados, nem esses são garantidos por uma definição estrita. Ao contrário, os significados introjetados se utilizarão do a priori cerebral para impor-lhe significados dinâmicos treinados durante a história da comunicação da espécie (filogênese) e do indivíduo submerso num contexto comunicacional (ontogêse). Sabe-se que há algumas disposições prévias sintéticas no cérebro humano como algumas ordens claras de fuga ou de reação diante de estímulos. Prefiro a visão de um kantismo biológico, fortemente identificado com uma certa corrente da etologia. Cf. a respeito de sintéticos cerebrais a priori e da possibilidade de um a priori biológico ao gosto kantiano: 1) Young, J. (1987) Philosophy and the Brain. Oxford University Press. 2) Young, J. (1978) Programs of the Brain. Oxford University Press; Cf. a respeito de etologia e particularmente a obra de Konrad Lorenz: Lorenz, K. , Popper, K (1990). L'avenir est ouvert. Paris: Flammarion.

2. O problema da discriminação de vocábulos e da base cerebral para essa discriminação é um tema fascinante. Muitos gostariam de dizer que os vocábulos variam de cultura para cultura e que nossa percepção é formatada por essa submersão cultural. Argumentariam, por exemplo, que algumas culturas têm apenas poucos nomes para cores e que as línguas ocidentais têm inúmeros. O culturalismo dessa hipótese sofreu uma derrota fragorosa com os trabalhos de Eleanor Rosch: a despeito de existir um número maior ou menor de vocábulos para cores em cada língua, a capacidade cerebral de discriminação é exatamente a mesma e em número finito. Portanto, em algumas culturas deve haver subutilização da capacidade de discriminação perceptual (ou não, porque nessas culturas pode haver qualidades agregadas que fazem subdiferenciações) e em outras há uma proliferação barroca da nomeação de coisas que são indistinguíveis. Talvez a diferenciação entre angústia e ansiedade seja de tipo cerebral compartimentalizavel, talvez seja barroquismo lingüístico. Parece-me que grande parte das chamadas qualidades psíquicas e vivências são desdobramentos da linguagem primitiva do prazer e do desprazer e que, na sua maior parte, não são apenas barroquismos lingüísticos, encontrando solo cerebral apto para diferenciá-las. Cf. a respeito do trabalho citado acerca de percepção em culturas diferentes: 1)Rosch, E. (1973) "Natural Categories", Cognitive Psychology 4:328-350; 2) Rosch,E., Lloyd, B. (ed) (1978) Cognition and Categorization. Lawrence Erlbaum.

3. A distinção entre teoria clássica dos conceitos e teoria prototípica é a seguinte: enquanto que na clássica há uma condição de definição precisa para um indivíduo pertencer a um conceito (x é ave se e somente se...), na concepção dinâmica há condições só parcialmente conhecidas (muito provavelmente baseadas em regularidades e não em regras) tais que, para o conceito ave há representantes mais específicos (um pardal, por exemplo) e menos típicos (uma galinha, por exemplo). A idéia que defendo é que tanto conceitos quanto significados advêm de razões dinâmicas baseadas em regularidades e não de regras estritas e digitais, condições necessárias e suficientes para a definição de algo. A teoria do significado de Bentham (que utilizo em minha argumentação) afirma que "significado de um termo é a soma de todos os significados que esse termo gera nas sentenças bem construídas em que é substituído". Ora, essa concepção é dinâmica, num certo sentido, e não estática como se o significado fosse ente único e passível de apreensão por uma definição baseada numa regra simples. Cf. a respeito da concepção clássica e prototípica dos conceitos 1) Medin, D., Smith, E. (1984) "Concepts and Concept Formation", Annual Review of Psychology 35:113-138; 2) Smith, E., Medin, D. (1981) Categories and Concepts. Harvard University Press. Cf. sobre a noção de definição contextual ou teoria das ficções de Bentham (redescrição de significado pelo esgotamento de ocorrências em sentenças) em Quine, W. (1979) "Naturalization de la Epistemologia" in Relatividad Ontologica y otros ensayos, Editorial Tecnos (pp.96 e ss): "El paso de Bentham fue el reconocimiento de la definición contextual, o lo que él llamó de paráfrasis. Advirtió que para explicar un término no necesitamos especificarle un objeto al que hacer referencia, ni siquiera especificar una palavra o frase sinónima; lo único que necesitamos es mostrar, por cualesquiera medios, cómo traducir todas las sentencias completas en las que deva usarse el término".

4. Hoje em dia se aceita que mesmo aquelas patologias supostamente puramente psíquicas têm alguma falha estrutural nas paredes e divisórias, transmitida por um ou mais genes. É questão de tempo descobrir o substrato íntimo cerebral de um sem-número de disfunções ditas psíquicas.

5. Um dos temas mais práticos que decorrem dessa definição de tipos de lesão seria o problema da reabilitação. Lesões concretas tendem a ser dificilmente tratáveis por reabilitação, salvo haja um espaço de alocação daquela função em outro departamento. Quando focais e em certos níveis, pode-se pensar em próteses. É fascinante, nesse sentido, todo o tipo de prótese e de adaptação que se faz hoje em dia, de maneira mais ou menos efetiva: cf. por exemplo, sobre próteses visuais (olho artificial - lembre-se de que o olho, na sua estrutura interna - a retina - já é uma parte do cérebro, porque as células ali instaladas são neurônios) Toward the Artificial Eye, número inteiro da revista IEEE Spectrum Maio 1996; cf. por exemplo, sobre controle de computadores em lesados tetraplégicos, Lusted, H., Knapp, B "Controlling Computers with Neural Signals" in Scientific American. Outubro de 1996.

6. Nesse sentido, creio ser totalmente impossível existir uma ciência do vivenciado biograficamente, senão pelas suas porções delimitantes, isto é, aquelas coagidas por uma bacia dinâmica de significados possíveis. A reconstrução quase-científica do dado biográfico somente é possível no espaço qualitativo em geral, jamais no exame do caso isolado. Porém, é preciso se perguntar se a ciência também não faz uso de certas aproximações para tratar os problemas concretos. Quase toda generalização sob a forma de uma lei científica admite um grau de abstração e idealização. Porém, distinguem-se a eficácia e a refutabilidade nesses casos que fazem com que as abstrações da física possam ser corrigidas com bem mais eficiência que as abstrações da psicologia, particularmente aquela que diz respeito ao indivíduo isolado e histórico. Ao contrário de inserir um relativismo e uma impossibilidade de uma ciência do vivenciado, é preciso estar atento à possibilidade de que esse vivenciado seja um barroquismo da circunstância. Afinal, ainda que com cores diferentes, as formas funcionais e disfuncionais seguem um mesmo grande eixo de coação científica legiforme.

7. De uma certa maneira o que se está dizendo é que o departamento virtual, no caso da mente, tem o mesmo estatuto dos termos teóricos na ciência e na teoria do conhecimento. O termo gene é não-observável, viabilizando-se sua verificação e testabilidade através de uma série de critérios operacionais. Porém, jamais se pode reduzir o termo concreto aos princípios operacionais e às sentenças empíricas que descrevem o processo de observação e verificação das sentenças em que ocorre o termo teórico. Embora o Positivismo Lógico e, particularmente Rudolf Carnap, tenham tentado eliminar os termos teóricos no início do século, purgando a ciência de qualquer metafísica (aqui entendida apenas como alusão a termos não-empíricos), o projeto não logrou êxito, presenciando-se já nos anos posteriores uma revitalização da metafísica e de seu papel na estrutra das teorias científicas. O mental seria uma forma de termo teórico, nesse sentido, que paradoxalmente seria acessível de imediato ao sujeito. Porém, esse sujeito seria também uma construção teórica que nos remeteria à única instância empírica real, o vivenciado, e a uma estrutura racional prévia - o conjunto de soluções atratoras dinâmicas que o cérebro admite. Cf. a respeito do Positivismo Lógico, Weiberg, J. (1950) Introduzione al Positivismo Logico. Giulio Einaudi editore. Cf. sobre a revitalização da metafísica na estrutura das teoria científicas, Sellars, W. (1968) reimpresso em (1986) Science and Methaphysics: Variations on Kantian Themes. Londres: Routledge and Kegan Paul. Cf. a respeito de dinâmica de teorias do ponto de vista da sociologia da ciência, Kuhn, T. (1982) A Estrutura das Revoluções Científicas. São Paulo: Ed. Perspectiva.

8. Cf. a esse respeito, embora tese bastante atacável, Swerdlow, N., Koob, G. (1987) "Dopamine, Schizophrenia, Mania, and Depression: Toward a Unified Hypothesis of Cortico-striato-pallido-thalamic Function". The Behavioral and Brain Sciences 10, 197-245.

9. Cf. trabalho extremamente interessante sobre ansiedade, embora, como o anterior, passível de várias críticas, Gray, J.(1982) "Précis of the neuropsychology of anxiety: an enquiry into the functions of the septo-hippocampal system". The Behavioral and Brain Sciences 5, 469-534.

10. Cuidado porque essas terapias são chamadas nos dias de hoje de "terapia cognitiva", embora não haja correlato direto de seus métodos com a malha conceitual aqui apresentada como ciência cognitiva. Pode-se dizer, de maneira mais ou menos geral, que a ciência cognitiva é muito mais condizente com terapias de base hermenêutica (fortemente calcadas na possibilidade de associações anômalas de significado pela natureza dinâmica de sua formação no contexto do processamento cerebral), embora sem negar a validade de técnicas de dessensibilização de afecções não-semânticas (comportamentais), as chamadas terapias cognitivas, sucedâneos mais ou menos específicos das terapias comportamentais de inspiração behaviorista e que, como o behaviorismo, não captam senão uma parte do processo de ligação das entradas e saídas do sistema. Ainda que se pudesse dizer que estão tentando modificar "esquemas" internos, conceito caro a uma ciência cognitiva de inspiração na inteligência artificial simbólica, vale lembrar que a teoria dos esquemas não supõe penetração consciente, manipulação voluntária e simples descondicionamento por reforço de novas ligações. Como há significados dinâmicos por trás de grande parte deles, creio, embora sem desacreditar de sua eficácia, que essas terapias são, como os atuais critérios diagnósticos (DSM IV), relativamente simplistas do ponto de vista da articulação teórica que as embasa, tanto do ponto de vista da estrutura das teorias, quanto da visão de sistema nervoso que propõem. Cf. a respeito de terapia cognitiva: Dobson, K. (ed) (1988) Handbook of Cognitive-Behavioral Therapies. Nova Iorque: The Guilford Press.

CAPÍTULO 16

1. Cf a esse respeito Gênesis 1-5 pp. 33-40 Bíblia de Jerusalém. Edições Paulinas.

2. Cf. a esse respeito, por exemplo, Passingham, R. (1993) The Frontal Lobes and Voluntary Action. Oxford: Oxford University Press. Cf. a respeito da relação entre lobo frontal (particularmente córtex pré-frontal) e origem comum das psicoses: Müller, H. (1985) "Prefrontal Cortex Dysfunction as a Common Factor in Psychoses". Acta Psychiatrica Scandinava 71: 431-440.

3. O fluxo sanguíneo, medido através de um PET scan, é frontal enquanto o sujeito está aprendendo. À medida que vai adquirindo destreza, o fluxo sanguíneo vai migrando para as áreas cerebrais posteriores. Esse seria um excelente critério de contraste para um experimento em que se testassem, de um lado as bifurcações no plano dos sinais e, de outro, a frontalização do fluxo (modo voluntário) e sua posterior cerebelização (modo automático) Cf. a respeito do trabalho com PET scan: Posner, M. "Seeing the Mind" in Science, vol. 262, 1993 (pp. 673-674).

4. Já falamos, em outra nota, sobre token-reduction e type-reduction (Cf. a esse respeito a nota 6 do capítulo 2). A impossibilidade de fazer uma tradução radical do vocabulário mental em vocabulário cerebral (caso da redução de termos) ou de fazer uma redução de teorias mentais a teorias cerebrais (caso da redução de teorias) gera problemas terríveis: por um lado, aceita-se que o dualismo de essência é falso, mas por outro lado tem-se que aceitar que há uma classificação cruzada entre as séries de predicados - os mentais e os cerebrais (cross-classification). A escola que aceita preferencialmente a hipótese de token-reduction é a da inteligência artificial simbólica. Como o software também está dissociado do hardware, tendo suas próprias leis, então nada mais normal que imaginar a mente também emergindo do cérebro. Cada fato mental seria um fato cerebral, mas não haveria equivalência de tipos ou categorias mentais e cerebrais, ou de leis mentais e cerebrais. Esse dualismo de predicados é perigoso porque reinsere a idéia de que algo não se explica no nível inferior. A vontade emergente seria, assim, tão não-cerebral quanto a vontade espírito. Por outro lado, é fato que não há possibilidade de empreender uma redução genuína e radical, fato que está apontado em Jerry Fodor no 1o capítulo de seu The Language of Thought. O argumento é tão irrebatível que um dos melhores artigos sobre redução não consegue propor solução para o problema da impossibilidade de redução do mental ao físico. (Cf. Hooker, C. 1981. "Towards a General Theory of Reduction" in Dialogue vol.XX, 1-3).Tem-se, então, duas soluções para o problema: ou se aceita que o mental emerge e com ele a vontade, impondo limitações de contorno à sua operação, pelo fato de ser implementado pelo cérebro (o que não garante que outros meios físicos tivessem essas mesmas limitações), ou, pelo menos no que diz respeito à vontade, considera-se o truque: a vontade é uma vivência que se agrega a um modo de controle da esfera superior cerebral (responsável pelo processamento mental) sobre a esfera cerebral inferior. A vontade não seria, assim, um ente, mas uma vivência agregada ao controle e à possibilidade de inibição ou ratificação de planos motores e sensoriais gerados abaixo da consciência.

CAPÍTULO 17

1. Devo algumas dessas idéias a uma conferência de Miguel Nicolelis.

2. Cf. Pascal, Blaise em Os Pensadores, Editora Abril , p.113 Artigo IV- A justiça e razão dos efeitos- parágrafo 298: "Justiça, força - É justo que o que é justo seja seguido. É necessário que o que é mais forte seja seguido. A justiça sem a força é impotente; a força sem a justiça é tirânica. A justiça sem a força será contestada, porque há sempre maus; a força sem a justiça será acusada. É preciso, pois, reunir a justiça e a força; e, dessa forma, fazer com que o que é justo seja forte, e o que é forte seja justo. A justiça é sujeita a disputas: a força é muito reconhecível, e sem disputa. Assim, não se pôde dar a força à justiça, porque a força contradisse a justiça, dizendo que esta era injusta, e que ela é que era justa; e, assim, não podendo fazer com que o que é justo fosse forte, fez-se com que o que é forte fosse justo".

3. Cf. a respeito das bases cerebrais da dislexia e da leitura de modo geral: Galburda, Albert (ed) (1989) From Reading to Neurons. MIT Press.

CAPÍTULO 18

1. Sobre o surgimento de linguagem no cérebro humano, cf. 1) Lieberman, P. (1984): The Biology of Evolution and Language. Cambridge: Harvard University Press; 2) Pinker, S. (1994) The Language Instinct. Nova Iorque: W. Morrow and Co. Sobre a comparação entre humanos e não-humanos em relação à linguagem, cf. Evans, C. e Marler, P. "Language and Animal Communication: Parallels and Contrasts" in Roitblat, H. e Meyer, J. (ed) (1995) Comparative Approaches to Cognitive Science. MIT Press (pp. 341-382).

2. Sobre semiótica cf. Eco, U. (1976) A Theory of Semiotics. Bloomington: Indiana University Press. Para as fontes, cf. a obra monumental de Charles Sanders Peirce: Collected Papers of Charles Sanders Peirce editados por Charles Hartshorne e Paul Weiss. Textos escolhidos podem ser encontrados em Peirce, C.(1984) Semiótica e Filosofia. São Paulo: Editora Cultrix.

3. O problema do conhecimento e da geração de significados por inspeção direta (knowledge by acquaintance) é extremamente complexo. De uma certa maneira, sabemos que aprendemos inicialmente por referência a objetos que nos são apontados. "Isto é uma cadeira" teria a propriedade de iniciar o falante no conjunto de categorias ou conceitos subsumidos por "cadeira". Porém, há uma série de fatos lingüistícos que não podem ser explicados pela gênese da experiência direta através de ostensão. A tese de que todos os significados pudessem ter sua gênese inicial na sensorialidade e na ostensão é empirista. "Nada está no intelecto sem que antes tenha estado nos sentidos" é a máxima dessa corrente, embora se tenha agregado, porteriormente, com o racionalismo, "salvo pelo próprio intelecto". Os feixes de idéias de David Hume que surgiriam a partir da sensorialidade não são capazes de explicar o todo do pensamento e da linguagem. A tese dos empiristas é exatamente a via inversa do Positivismo Lógico de Rudolf Carnap que tentou purgar a ciência dos termos teóricos, tranduzindo-os radicalmente a termos empíricos, sensoriais ou observacionais. A designação de um objeto por ostensão não é capaz de capturar-lhe nuanças que carecem de uma estrutura inata e apriorista (que na minha opinião é o cérebro humano), para que possam ser corretamente manipulados pela linguagem. Cf. a respeito Quine, W. (1960) Word and Object. MIT Press. Cf. ainda a respeito de filosofia da linguagem, o excelente livro de Alston, P. (1977) Filosofia da Linguagem. Rio de Janeiro: Zahar Editores. Cf. ainda a respeito do debate sobre apriorismo e empirismo na linguagem, Palmarini, M. (org.) (1979) Théories du langage, Théories de l'apprentissage: Le débat entre Jean Piaget e Noam Chomsky. Paris: Ed. du Seuil.

4. A existência de uma teoria mental intuitiva (folk-psychology) não explicitamente escrita, mas subjacente à vida cotidiana, é fato aceito por praticamente toda a comunidade científica e filosófica que estuda cérebro e mente. Cuidado, porque essa teoria, embora intuitiva, não garante qualquer relação com realidade e verdade. A intencionalidade, numa determinada interpretação, é o elemento central da teoria intuitiva: construímos explicações sobre o comportamento dos outros com base nos operadores intencionais ("Fulano fez isso porque crê naquilo outro"). A não-garantia de verdade na teoria intuitiva advém de uma série de limitações. Entre elas, pode-se citar o caso da física clássica. Alexandre Koyré mostra que a física intuitiva é a física do ímpeto, grega e antropomórfica (a pedra se move porque transfiro para ela, com o impulso, o desejo do movimento), e não a física heliocêntrica de Galileu e Newton. O fato de supormos que a física clássica seja intuitiva, advém da educação precoce - contra-intuitiva - a que somos submetidos desde a infância, quando, olhando para o céu, julgamos que a Terra está parada. Ora, se a teoria intuitiva erraria no caso da física clássica, trocando-a pela física antiga, o erro ainda persiste em se tratando da mente. A psicologia intuitiva, no que concerne a mente, persiste situando-a como fenômeno não-físico, capaz de ter crenças e vontade, etc. Esses últimos são apenas qualificações lingüísticas para atos e disposições de um corpo físico - o cérebro humano. Cf. a respeito de teoria física intuitiva e clássica Koyré, A. (1973) Études d´histoire de la pensée scientifique. Paris Gallimard (pp. 167-228). Cf. a respeito de folk-psychology, Stich, S. (1983) From Folk Psychology to Cognitive Science: the case against belief. MIT Press.

5. O leitor deverá tomar cuidado, porque todas as considerações acerca da linguagem estão aqui circunscritas ao indivíduo que usa a linguagem com o fim de comunicar idéias e situações. Todos os seus usos poéticos e metafóricos, desde que explicitamente convencionados como tais, estão de fora desta análise. De modo geral há uma corrente que postula que há uma relação entre poesia, literatura, fantasia e doença mental. Creio que há planos tão diversos em jogo, que isto se presta apenas a confundir e relativizar uma situação tão grave.

6. A noção de pragmaticamente verdadeira ou falsa é uma maneira de tratar a verdade, em que a verdade última ou essencial não existe, mas apenas aproximações momentâneas dela. Deve-se a James e Peirce, entre outros. Há outras teorias da verdade, como a da verdade essencial e a da verdade formal. Cf. Kirkham, R. (1992) Theories of Truth. MIT Press.

7. Cf. a respeito de afasia e dislexia: Galaburda, A. (ed) (1989) From Reading to Neurons. MIT Press. Cf. ainda, especificamente sobre dislexia, Eden, G., et. al. "Abnormal Processing of Visual Motion in Dyslexia Revealed by Functional Brain Imaging" in Nature vol 382, 1996, (pp. 66-69).

CAPÍTULO 19

1. Gunderson, K. (1972) "Content and Consciousness and Mind-Body Problem" in The Journal of Philosophy vol.LXIX, number 18

2. A idéia de que haja uma inteligibilidade mental não acessível imediatamente à consciência, associada à assimetria dos sujeitos da comunicação é o que garante, ainda que dentro de certos limites, eficácia às chamadas psicoterapias de base hermenêutica (interpretação/decodificação + enriquecimento de conexões analógicas no encaminhamento da compreensão de conceitos e solução de problemas).

3. A diferença entre compreensão e explicação é fundamental aqui. Compreender significa estabelecer uma relação de semelhança e empatia. Explicar significa estabelecer uma rede conceitual capaz de prever e refutar certos desdobramentos do elemento explicado. Pode-se compreender o relato de alguém que diz sentir medo de morrer, porque temos uma mente que também é capaz de sentir algo semelhante. Não se pode compreender a trajetória de uma pedra que cai pela força da gravidade; pode-se explicá-la. A diferença entre compreender e explicar está na base de uma divisão aparentemente irreconciliável entre a mente e o cérebro, ou entre a cultura e a natureza. Cf. a respeito von Wright, G. (1980) Explicación y Comprensión. Madri: Alianza Editorial.

4. Cf. a respeito das funções cognitivas do cerebelo 1) Barinaga, M.: "The Cerebellum: Movement Coordinator or much more?" in Science vol 272, 1996, (pp. 482-483). 2) Ito, M.: "How Does the Cerebellum Facilitate Thought?" in Ono, T. et. al. (ed) (1993) Brain Mechanisms of Perception and Memory: from neuron to behavior. Oxford University Press (pp.651-658).

5. Imagine o discurso, proferido por um político mentiroso: "Eu quero o seu bem." É falso porque infringe a ação. Da mesma forma "Eu posso ou quero ir a Marte". Grande parte do discurso do poder e da religião ( não no tocante a uma fé sem objeto, mas uma série de promessas irrealizáveis) é pseudodiscurso, porque cheio de proposições falsas.

CAPÍTULO 20

1. O leitor poderá voltar aos primeiros capítulos e lembrar-se de que falei que o potencial de ação é de tamanho fixo. Isso é verdade, mas com estimulação repetida pode haver geração de uma potencialização de longo termo (LTP-long term potentiation) que tem amplitude maior que os outros. Este evento, para muitos, está associado à consolidação da memória, embora seja matéria sujeita a debate.

2. Há alguns anos esteve em moda uma série de hipóteses sobre "substâncias " de memória. Isto é, a memória seria uma proteína ou um cristal, etc. Cuidado, porque talvez aqui haja o mesmo equívoco de um recente artigo que declarava existir relação entre o pH (medida de acidez de uma substância) e a inteligência. Pesquisadores teriam achado uma relação significativa entre nível de acidez e inteligência. Pode haver, mas seria a mesma coisa que dizer que porque há sempre bombeiros em lugares que pegam fogo os bombeiros são causa de incêndios. Ora, a presença de certas substâncias, proteínas, cristais, para a memória - bem como a alteração de pH na inteligência- são todos fatos que poderiam fazer parte de uma imensa orquestração em que o produto final é inteligência, a memória ou qualquer outra função mental. A base do processo (e não o modo íntimo do procedimento) é uma alteração estrutural na conexão. Se isso altera pH ou se gera proteínas, é outro problema. Comentários como o do pH são "erros básicos que merecem comentários ácidos".

3. Mesmo no caso das áreas sensoriais primárias há mapas de representação, mas estes mapas se deslocam de lugar com o tempo (donde até as representações mais básicas no cérebro têm uma codificação no tempo e não somente no espaço). Na nossa figura de explicação, mesmo nestes casos há um departamento concreto do tipo Torre de Pisa, que se move lentamente com o tempo! Isso faz com que seja perda de tempo procurar por local ou departamento fixo, até mesmo no caso das projeções sensoriais mais básicas - p.ex. deteção de fatos ambientais.

CAPÍTULO 21

1. O método de purificação de característica genética lança mão de um artifício que seria impossível em humanos. Fazem-se determinados cruzamentos de purificação e, ao longo de algumas gerações, vão-se obtendo linhagens genéticas puras. O mesmo que se faz para estudar qualquer fenômeno hereditário.

2. Cf. Barondes,S. (1993) Molecules and Mental Illness. Scientific American Library (pg.41).

3. Uma afirmação conservadora diria que pelo menos 25% da herança são seguramente devidos à genética. Nesse caso os outros 75% seriam devido ao meio. Dá para entender, então, como o problema da personalidade é complexo, uma vez que fatores de 25% são bastante grandes. Mais ainda, não sabemos se há linearidade nos 25% primeiros e nos 75% restantes. Costumo dizer que, se a personalidade é uma edificação, esses 25% devem ser os alicerces. É impossível construir um viaduto com os alicerces (estrutura) de um prédio de 20 andares. Essa consideração pode ser fundamental para todos aqueles que costumam proclamar sandices estatísticas sem compreender certas limitações que esses métodos carregam.

4. Cf. Yeh,S.; Fricke,R. e Edwards,D (1996) "The Effect of Social Experience on Serotonergic Modulation on the Escape Circuit of Crayfish" in Science vol 271 p. 366

5. DSM é sigla de Manual Estatístico Diagnóstico para doenças mentais que pretende uniformizar os procedimentos diagnósticos para esses transtornos. Embora louvável, e de muita valia para muitas situações, carece de embasamento no que diz respeito ao panorama teórico.

6. Quem supõe que esses exemplos são absurdos e jocosos em excesso não avalia o papel da moda, do meio e da propaganda na forja de grande parte dos chamados elementos acessórios da personalidade.

7. Sobre personalidade, para algumas considerações sobre classificação e psicopatologia, cf. 1) Schneider, K. (1978) Psicopatologia Clínica. São Paulo: Ed. Mestre Jou. 2) Cooper, A., Frances, A., Sacks, M. (ed) (1986) The Personality Disorders and Neuroses. Nova Iorque: Basic Books. Essas referências são fundamentais para que se conheçam os outros tipos de distúrbio de personalidade que não foram tratados no capítulo. (A teoria de personalidade dos três eixos - ação, sensação e valor - tem por objetivo apenas testar aspectos da teoria geral sobre a mente.)

CAPÍTULO 22

1. É muito importante que fique absolutamente claro este aspecto. Há dois modos de ver a importância do sonho: um é o das teorias psicanalíticas que pretendem ver no sonho material que retrata profundezas do inconsciente, material reprimido, etc.; outra é apenas ligada ao fato de que o sonho é um estado degradado de consciência, mas que tem uma série de dados que nos podem ajudar a elucidar suas formas e funções. É assim um poderoso instrumento para entender funções mentais e sua relação com o cérebro. Mais ainda, na redução sindrômica o sonho é um dos 4 grandes tipos a serem reduzidos a uma dinâmica cerebral. Sonhos e psicoses seriam formas caóticas, resultantes de uma cascata de bifurcações (a bifurcação isolada é condição para o chaveamento da informação do modo automático para o voluntário-consciente). O sonho seria uma forma bastante instável de caos, enquanto que a psicose exibiria uma forma robusta.

2. O leitor não deve se espantar com essa hipótese. Alguns dos maiores neurobiólogos da atualidade, entre eles Rodolfo Llinás, a defendem com bastante consistência. Cf. por exemplo 1) Llinás, R., Paré, D. "Commentary of Dreaming and Wakefulness" in Neuroscience vol. 44, No 3, (pp. 521-535), 1991. 2) Winson, J. "The Meaning of Dreams" in Scientific American novembro de 1990 (pp. 42-48). 3) Crick, F., Mitchison, G. "The function of Dream Sleep" in Nature vol. 304, 1983, (pp.111-114). Uma das máximas de Llinás é de que o sonho é a consciência sem a correção dos sentidos. A consciência seria um sistema autônomo que se utiliza do meio apenas como fator de correção para suas "hipóteses corticais". "O cérebro tem um ponto de vista", diz Llinás.

3. Para aqueles que têm um pouco mais de familiaridade com certos sistemas complexos, particularmente em física, pode-se arriscar dizendo que o sonho é consciência conservativa ou autônoma e a vigília é consciência forçada ou dissipativa.

4. Alguns trabalhos interessantes a esse respeito têm sido feitos no laboratório de Cesar Timo-Iaria. Cf. Timo-Iaria, C. e Valle, A. (1995) "On the functional role of consciousness" in Ciência e Cultura, vol. 47 (4).

5. Há interessantes trabalhos sobre redes neurais que "sonham". A função seria retificar bacias de atração adquiridas durante a fase de aprendizado. Com isso, seriam eliminadas as memórias espúrias. Levado aos extremos, o processo (unlearning algorithms) removeria todas as memórias. Não quero dizer com isso que o sonho pudesse eliminar a memória, mas é interessante tópico para o estudo de sua função e das disfunções análogas. Cf. a respeito de sonhos em redes neurais, ou algoritmos de remoção de memórias espúrias, Hopfield, J., Feinstein, D., Palmer, R. "Unlearning has a Stabilizing Effect in Collective Memories" in Nature vol. 304, 1983, pp. 158-159.

CAPÍTULO 23

1. Não vou preocupar-me em explicar, mesmo porque seria também uma hipótese, como é possível que haja eventos e sincronizações em t, t+1 e t+2. Na verdade, o problema da sincronização é também uma aproximação, porque há um misto de codificação no tempo e codificação analógica no espaço contíguo.

2. Cuidado, porque a noção de consciência coletiva e de sincronização sem cérebros por trás é alegórica. Serve para unificar o discurso das ciências naturais e das ciências humanas, mas deve despertar atenção para a imensa gama de besteiras que pode endossar. Deve-se usar este conceito com cuidado e com a mais estrita observação dos cânones de consistência do discurso científico. Do contrário, poderá suscitar conclusão que ouvi certa vez a respeito: "Até que enfim o senhor disse que a ciência concorda com o meu massagista e professor de ioga".

CAPÍTULO 24

1. Essa relação de encefalização progressiva segue uma dinâmica não-linear, o que talvez explique porque pequenos acréscimos no plano quantitativo geram comportamento qualitativo dramaticamente diferente. Afinal nosso cérebro não é tão maior que o do macaco e produz fatos mentais de uma sofisticação impensável no parente próximo. Cf. Finlay, B. e Darlington,R. op. cit. na nota 8 do capítulo 10.

2. Cf. a tese sobre os três estágios de evolução da mente humana em Donald,M. (1991) Origins of the Modern Mind: Three stages in the evolution of culture and cognition. Harvard University Press.

3. Interessante porque se a peste, antes infecção, excluia, agora é toda a parafernália moderna que gera seus similares patológicos. Não por acaso, as doenças da modernidade vão emprestar nomes daquilo que antes foi obra das agressões biológicas. Talvez não haja tanta impropriedade em se chamar de vírus um programa que adultera outros. Para uma mente, entendida como código evanescente, não importa o meio físico de sustentação do agressor, mas sim sua inteligibilidade destrutiva.

4. Essa lógica do mercado é paráfrase de um verificacionismo que se mostrou falacioso em lógica da ciência. Se digo que A (por exemplo uma teoria) implica B (por exemplo um produto dela); se B é verdadeiro, então A é verdadeiro, cometo o que se conhece como "falácia de afirmação do conseqüente". Faz tempo sabemos que a boa ciência se faz pela cadeia A implica B, não B (ou B é falso), logo não A (A é falso). Isso se chama refutacionismo. Cf. Popper, K. (1972) A Lógica da Descoberta Científica. São Paulo: Editora Cultrix

5. Cf. o excelente trabalho sobre desnutrição, apontando para um número de 195 milhões de crianças desnutridas no mundo e suas afecções intelectuais (como digo, ideologia e neurociência também podem se confundir) Brown, J. e Pollitt, E. "Malnutrition, Poverty and Intellectual Development" in Scientific American Fev. 1996, pp. 26-31

CAPÍTULO 25

1. Cf. Prigogine, I. (1984) Order Out of Chaos.N.I.: Bantam Books.

2. Cf. Shannon,C. and Weaver,W. (1963) The Mathematical Theory of Communication. University of Illinois Press.

3. O leitor que não entendeu a noção de estabilidade ou não de um estado deve pensar no caso de certos fenômenos que ocorrem quando se está pegando no sono ou se está acordando. Por um lapso de segundo temos, às vezes, nessas situações fenômenos de alucinação, sensações estranhas, paralisias, medos horríveis, fantasmagorias, etc. Duram frações de segundo, quando então percebemos que estávamos ainda "meio sonhando". Esses são os chamados estados anômalos não estáveis porque duram pouquíssimo tempo. Uma depressão, um quadro ansioso, uma psicose são estados também provenientes de auto-organização do sistema, mas que exibem uma estabilidade que dura muito tempo, podendo até durar para sempre, em não se tomando as medidas cabíveis.

4. Em recente trabalho, desses voltados para organização de empresas, um bem-sucedido americano prescreve: "Se quiser um amigo, arrume um cachorro...eu , por exemplo, tenho dois.". Lamento não fornecer a fonte porque não me prestei a recortar tal artigo, nem a comprar seu livro.

CAPÍTULO 26

1. Sobre genes egoístas leia Dawkin, R. (1979) O gene egoísta. Editora Itatiaia e Edusp. Sobre moralidade em animais, particularmente em macacos, leia de Waal (1996) Good Natured: The Origins of Right and Wrong in Humans and Other Animals .Harvard University Press.

2. Essa formulação é semelhante à proposta por Laplace quando diz que, se tivesse a posição e a velocidade de todos os corpos do universo, faria qualquer previsão. Isso ficou conhecido como o "céu de Laplace" porque não há condição de conhecer todas essas posições e velocidades. Laplace errava em três vertentes ao dizer isso: a primeira, é que posteriormente descobriu-se que, mesmo em sistemas determinísticos estritos como o da época, haveria para certas situações imprevisibilidade (isto é o chamado caos determinístico); o segundo erro, é que a noção de determinismo causal evoluiu em fisica clássica para outras modalidades de causa e de fenômenos emergentes (isto já está descrito em J. S. Mill); o terceiro erro, está ligado à possibilidade de existir acaso genuíno (e não apenas desconhecimento de todos os fatores) na natureza - esse é o caso da mecânica quântica. Em todo caso, a paráfrase acima visa a provocar, uma vez que, a despeito de propriedades emergentes de neurônios, poderíamos pensar que conhecidos seus estados e locais (o que é tão impossível quanto o céu de Laplace), poderíamos prever qualquer ato subseqüente daquele indivíduo.

3. Código Penal Brasileiro, art. 28, parágrafo 1o: "É isento de pena o agente que, por embriaguez completa, proveniente de caso fortuito ou força maior, era, ao tempo da ação ou da omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento." A meu ver, aqui está a idéia de que, em havendo substância capaz de alterar o agente de forma tal que não possa agir diferentemente, ou que não compreenda a natureza de seu ato, está afastada a pena. Pois bem, a idéia de uma ausência de vontade, no caso do dolo, ou de compreensão, no caso da ausência de consciência, constituiria isenção de culpa e de pena. Penso que o problema da discussão da base neuronal da vontade, como também a feita anteriormente para a consciência, é vital para que se mantenha a noção de redução de pena e de isenção da mesma.

4. Creio, de uma certa forma, que a noção de direito positivo caminha nessa direção, uma vez que, se tenho uma relação de implicação entre o fato A e B (quando para "se A, então B" tenho a chamada condição necessária, e para "se B, então A" tenho a chamada condição suficiente), pode-se construir uma relação lógica tal que o que está proibido é apenas que o antecedente seja verdadeiro e o conseqüente falso (podendo haver antecedente falso e conseqüente verdadeiro, bem como ambos verdadeiros e ambos falsos). Não haveria imputação sem crime, porém pode se construir algo tal que, de um antecedente falso, se tenha um conseqüente verdadeiro, isto é, pode-se pensar que, em não havendo vontade, ainda assim pode, em havendo crime, haver sanção. Ou, dito de outra forma, creio que a noção de imputação de que se utilizam os juristas positivistas (Cf. Hans Kelsen Teoria Pura do Direito. Martins Fontes) é parente da lógica que, organizando relações de antecedente e conseqüente, possibilita que se possa ter conseqüente verdadeiro a partir de antecedente falso. Essa manipulação de conceitos visa apenas a mostrar que a idéia de uma norma positiva é absolutamente aceitável, embora as derivações que se fazem a partir dela - instâncias processuais e também avaliação de mérito -, bem como a escolha dessas normas positivas (no caso supremo a constituição) devam ser guiadas por alguns conceitos de moderna teoria cerebral e de constituição do sujeito. Não posso imaginar um direito ilhado numa norma posta antiquada e muito menos sujeito ao caráter de "positivo" de uma lei que tramita no Congresso visando a fechar os hospitais psiquiátricos.

5. Cf. Libet, B et. al. "Time of Conscious Intention to Act in Relation to Onset of Cerebral Activity (readiness-potential). The Unconscious Initiation of a Freely Voluntary Act" in Brain 106 (1983). Quanto a minha idéia anterior de que a liberdade e a vontade não passavam de uma ilusão com finalidade adaptativa (fortemente influencida pela consistência ainda irrefutável do artigo citado acima), cf. Del Nero,H. (1992) "O problema da mente na ciência cognitiva" in Coleção Documentos IEA-USP. O leitor deverá, no entanto, prestar atenção que justamente a teoria da vontade que proponho é compatível com esse achado neurológico. A planificação seria não-voluntária e não-consciente. A ratificação e a inibição da ação planejada, ou presumida como prefiro chamar, seriam funções da consciência, seguidas de uma forte sensação de controle.

6. De modo geral o livro de Fukuyama defende uma idéia de vitória das idéias liberais sobre qualquer outra forma de organização do estado e da produção. Após a queda do muro de Berlim e do império soviético, os liberais crêem que a história, enquanto dialética e antagonismo, terminou. O liberalismo triunfou. O socialismo, qualquer, é letra morta. Não percebem alguns desses que o próprio capitalismo vem mudando pela pressão de idéias socialistas. Isto é, não se pode falar de um mesmo capitalismo quando se comparam a Inglaterra de século XIX, o "welfare-state" e as sociais-democracias européias de hoje em dia. Cf. Francis Fukuyama (1992) The End of History and The Last Man. Free Press. Sobre o novo sentido do binômio direita-esquerda, cf. Norberto Bobbio (1995) Direita e Esquerda: razões e significados de uma distinção política. Editora Unesp. Para uma crítica severa da concepção de vitória do neoliberalismos sobre outras formas de organização, cf. Robert Kurz (1992) O Colapso da Modernização: da derrocada do socialismo de caserna à crise da economia mundial. Editora Paz e Terra.

7. Consenso de Washington é documento contendo prescrições neoliberais para políticas de ajuste em países que queiram se inserir na economia global. Nas suas primeiras versões faz apelo essencialmente monetarista, redução de gastos públicos, privatizações rápidas, economia de mercado com livre concorrência, etc. Em suas versões posteriores já inicia a inclusão da ênfase na educação e no aspecto social como fatores também importantes.

8. Parece haver confusão simples entre contrário e contraditório. Contrário poderia dar a idéia de estabelecer equilíbrio entre os opostos. Contraditório alude a inconsistente. Pelo menos em lógica, é o que os termos querem dizer. Não creio que seja tão acidental a confusão entre o direito de defesa que estabelece o contrário possibilitando a decisão pelo equilíbrio, e o processo de criação de argumentos inconsistentes, contraditórios, que visa somente a embaralhar a mente do julgador e caricaturizar a idéia da justiça e do direito. No direito, a idéia de contraditório seria apenas a de contradizer, mas o uso livre de que lanço mão acima visa apenas a aclarar e discernir o que chamaria de bom processo, distinguindo-o do que chamaria de mau ou pseudoprocesso (como procurei distinguir o bom e o mau discurso).

9. Cf: John Dewey (1951) The influence of Darwinism on Philosophy. Peter Smith, e também a obra citada em outro ponto de Frans de Waal (1996) sobre a ética nos animais.

10. Relatório de organismo internacional mostra que, medido o grau de confiança no semelhante e nível de riqueza, pode-se estabelecer relação linear: quer dizer, quanto mais se confia mais rápido é o contrato e o cumprimento, retirando intermediários legais excessivos e hesitações atemorizadas contrárias ao espírito do empreendedor.

11. Algumas experiências em escolas primárias americanas, mobilizando crianças, famílias e comunidadades para padrões éticos básicos têm diminuído sensivelmente a violência e a repetência.

CAPÍTULO 27

1. Cf. 1) Lickona, T. (1991) Educating for Character: how our schools can teach respect and responsibility. Bantam Books. 2) Bruer, J. (1995) Schools for Thought. MIT Press. 3) McGilly, K. (ed) 1995 Classroom Lessons: integrating Cognitive Theory and classroom practice. MIT Press. 4) Hirsch, E. (1996) The Schools we Need: why we don´t have them. Doubleday. 5) Bruer, J. (1996) The Culture of Education. Harvard University Press. 6) Wilson, K., Daviss, B. (1994) Redesigning Education. Henry Holt and Co.

2. Quando se falar de Internet há que distinguir dois usos diversos: as páginas (home page) da chamada WEB que dispõem de imagens, som, textos, em suma, dos chamados recursos de multimídia (tal fosse um CD ROM) e o correio eletrônico (electronic mail ou abreviadamente e.mail), que é usado para trocar velozes mensagens a custo praticamente zero, e também para realizar conferências com outras pessoas em qualquer parte por preço insignificante. A importância da Internet é inegável, embora seu potencial de mau uso seja enorme. Cf. um interessante artigo a esse respeito Huang, M., Alessi, N. "The Internet and the Future of Psychiatry" in American Journal of Psychiatry 153:7, 1996, (pp. 861-869).

3. Expressão francesa antiga que denota o indivíduo que detém uma infinidade de informação pontual sem articulação entre elas, sem conhecimento genuíno.

4. Cf. C.Lasch (1995) The Revolt of the Elites and the Betrayal of Democracy. Nova Iorque: W.W.Norton Co.

5. Segundo meu amigo Paulo Blinder, matemático e estudante de rabinato, essa observação seria válida para todas as pessoas que não os judeus. Estes seriam, segundo Maimonides em Mishnê Torá, Hilchot Melachim (cap. 9 e 10) os sete mandamentos para os descendentes de Noé: 1. Proibição de adorar falsas divindades. 2. Blasfêmia. 3. Assassinato. 4. Incesto e Adultério. 5. Roubo. 6. Comer carne de animais vivos (e outras expressões de crueldade). 7. Obrigação de estabelecer leis e tribunais de justiça. A campanha para a divulgação desse texto (Campanha Rebbe de Lubavitch), citado e fornecido por Paulo Blinder, é de Rabbi Menachem Mendel Schneerson ZTK''L.

6. Confira a esse respeito um livro de sucesso nos EUA que já trata o cérebro não mais pelo prisma de direito e esquerdo dos antigos manuais de ajuda empresarial; agora são quatro as partes. Cuidado que com o tempo serão tantas que você terá de treinar tiro ao alvo para mirar as idéias nos locais certos. Cf. Ned Herrmann (1996) The whole Brain Business Book: unlocking the power of whole brain thinking in organizations and individuals. McGraw Hill

7. Cf. Gilles Lipovetsky (1991) O Império do Ef Amero: a moda e seu destino nas sociedades modernas. Companhia das Letras.

CONCLUSÃO

1. A citação é da tradução brasileira de Bertold Brecht (1991) Teatro Completo vol.6. Vida de Galileu. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra. Um comentário de meu bom revisor e amigo Anderson Andrade Depizol complementa: "Quod non fecerunt barbari, fecerunt Barberini." (O que os bárbaros não fizeram, fizeram os Barberini.) Na época em que Galileu foi julgado pela Inquisição, o papa também era um Barberini (Urbano VIII).

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ÍNDICE REMISSIVO

A

a priori, sintético e biologia, 472

abdução 160

ação consciente 327

ação e motricidade, 321-338

anomalias da percepção e motricidade 335- 338, presumida x redescrita 427

acaso 132, 187-188, 197, 371

acetilcolina 71

afasias 317

afetivo modo 157

afetividade, 249

disfunção afetiva 266-281, doença afetiva (cf.disfunção da afetividade, humor e emo- ção) 269 interação afetiva em máquinas 266

affordances, 460

álcool 281, 342

alcoolismo 284

algoritmo, 158, não-algorítmico 186 genético190

alimentares, distúrbios 127, 280-281

alucinação 335

Alzheimer, doença de 235

amígdala 72

amnésia 347

AMP cíclico, 457, e computação, 478

analógico, 42, 62, 68, 82, 92, 96, 109, 114,

127, 138, 143, 169, 252-253, 472

e formação da vida mental 263

e neurônios 157-158

anorexia 269, 280, 289

anorexígenos 281

ansiedade 54, 56, 111, 127, 240, 243, 269, 278- 281, 299, 459, 480

ansiolíticos 56, 280

antidepressivos 54-55, 280

antropologia 156,

e descriminação de cores, 481

apetite, anomalias do 226, 280-281

aprendizado, 52, 86, 114, 132-134,136,

174-176, 251, 263, 284

cérebro e ensino 303

em redes neurais 170-171, 473

área,

de Broca 309, 317

de integração 27, 29,

de Wernicke 309, 317

motora 27

sensorial 27

Arendt, H. 367, 451

argumento, válido 150, não-válido 150

arterioesclerose 235

assembléias de neurônios 82, 109, 263

assembler, linguagem 161, 465

atenção, 122, 277, 295-305

e reflexão 304

espontânea 225, 302

patologias da 301-304

sensorial 304

voluntária 225, 302

ato falho 162

atrator, 179, 199, e significado 259

atrito 197

auto-referência 275

automático, atitude 120, controle 200

autômatos celulares 194

axioma, 370

coletivo e personalidade social 369-374

sistema axiomático185

axônio 36

B

Babbage, C. 154

bacia de atração (cf. também atrator)

Barlow, H. 461

Bak, P. 194

behaviorismo 155, 175, 322

Bentham, J. 482

benzodiazepínicos (calmantes, ansiolíticos) 56

bibliotecas 119

bifurcações, 182, 196-202, 231, 469

cascata de 198

e separação de modo voluntário e

automático 201

binário, alfabeto 174

brain mapping (mapeamento cerebral) 261

Brecht, B. 454

Brentano, F. 467

bulbo 73

bulimia 127, 269, 281, 289, 462

C

caixa-preta 155

camada intermediária, (camada oculta)

e redes neurais 89, 167

campo, teoria de 191,

caos, 182, 196-197, 232

rota para o 198

captura,

faixa de em malhas de sincronismo 202

Carnap, R. 483

categorias (cf. conceitos)

causalidade 192, 332

cenários de ação 121

censura,

e consciência 337, e sonho 380

ceticismo, 480

cerebelo 72-73, 326-327, 484

modo automático 284

cérebro, fôrma 119

chinês, quarto (J. Searle) argumento do,462

chip 258

Chomsky, N. 175, 474

Church, A. 151

cibernética 193, 478

ciência, 120, 141

cognitiva 153

cinergética 194

circuitos, 79 tálamo-cortical 96

Circulo de Viena 322

codificação,

e neurônios 84, e mente 107-109

código, 83, 97, 143, 255, 331

de barras 43, 47, 64, 76, 81, 109, 97-101, 105, 125, 342

de comunicação 307

de convocação 67, 258

e consciência 332

e memória 341

monismo dos códigos 332

puro 140, 166

temporal 92-96, 107

virtual 95

coerência,

e córtex 298

consistência e verossimilhança 300-301

sonho e consciência 382

cognição 157

cognitivo, modo 156, terapia cognitiva 484

comissões

(cf. também comitês e

departamento virtual) 59, 263, 265

comitê,

(cf. também comissões

e departamento virtual) 63, 66, 107,

completude 159, 184-186, 475-77

complexidade, 31, 75, 142

ação complexa 327

e ambiente complexo 162

teoria da 232

comportamento 155

compulsão 269, 288

computação 92, 124, 148, 150, 476

e prova de teoremas matemáticos 156 manipulação lógico-computacional 156

computador, e mente 102-104, 149, 353-354

comunicação 310

conativo, modo 157

conceito, 133-134, 263, 349

concepção analógico-sincrônica

(prototípica) 255-257, 483

concepção discreto-digital

(clássica) dos 255-257, 483

concentração, anomalias da 225

condicionamento 15

condições iniciais, 196

sensibilidade a 196

conectivo,

ou 48, se...então 85, e 84, 97,

lógico e neurônios 85

conexão entre neurônios 85

conexionismo (cf. redes neurais e IAC)

confirmação de hipóteses 297-298

conhecimento 125, 218-221, 283, 332

consciência, 111, 119, 125, 181, 254

coletiva 332

crítica 75

e direito 134

e sinais cerebrais 203

estado, processo e função 346

ética 332

imediata 144

infraconsciência 142 supraconsciência 142

objetiva 148

processos não-conscientes 125

sociologia, adequação e obediência 330

teoria da 325-335, 387-392

Consenso de Washington 433

conteúdo 148

contextos,

opacos 138, complexos 147

controle, 193

voluntário 200

da ação e da percepção 288,

anomalia do controle do impulso 335

corpo caloso 72, 229

corpo celular 36

correio eletrônico (ou e.mail) 443

córtex, 72, 96,

e atenção 295

e região subcortical 296

costumes 147

crença 141

criatividade 75, 114

criticalidade auto-organizada 194

cultura 120, 137

cultural, objeto 139

D

da Costa, N. 469

darwinismo neural 195

DCC (dinâmica cerebral clássica) 180, 183, 186-187, 189,

DCQ (dinâmica cerebral quântica), 180, 184- 187, instrumentalista 470

decisão,

tomada de decisão sob risco 262,

teoria da 162, 230 (normativa)

teoria da 162 (descritiva)

dedução 150, 160

delírio, 236, 266, 275

de culpa 239, 275

místico 238

de ruína 239, 275

de ciúme 239, 275

de falência dos órgãos 239

de poder e de grandeza 239, 277

de doença 275

catatímico 275

percepção delirante 315

deliróide, pensamento 275

demência, 235, e afasia 317

dendritos 36, 87

departamento concreto, 59-76

divisões no 70,

virtual e mente 63

depressão, 54, 57, 266, 269-273, 457

ansiosa 272, depressões psicóticas 275

leve crônica (cf. também distimia) 276

descoberta 350

desemprego 400

desnutrição 491

despertar precoce ou insônia terminal 225

determinismo 187, 196

caótico (caos determinístico) 203

dever ser e consciência 391-392

dever social e ser natural 332

diagnóstico psiquiátrico e linguagem 256

diencéfalo 72

digital, 42, 62, 68, 82, 92, 96, 114, 109, 119,

127,138, 151, 157, 169, 252

e serial 167, e paralelo 167

dinâmica cerebral (cf. modelos cerebralistas)

dinâmica, lenta 196, rápida 196

dipolo 456

direito 147

discreto-digital,

concepção 164, 184

sistemas e linguagem 165

discurso, 300

hipótese-discurso 299

sobre a ação e sobre a percepção 330

disfunção mental, 130, 207-209, 257-259

e sinapses alteradas 53-57, 77

e caos 202

e eventos externos 208

e ciência cognitiva 209

e verossimilhança 238

e linguagem 313-314

dislexia 317-318

distimia 269, 276

DOC doença obsessivo-compulsiva 281

doença mental (cf. também patologia mental e disfunção mental)

dolo, 291

qualificação jurídica e vontade cerebral 291

dopamina 71, 234, 335

Dostoiévski, F. 239, 366

down-regulation, 458

drogas-fármacos (remédios), 266, 274, 335

escolha de 265 e alterações quantitativo-

qualitativo-cerebrais 203, inteligentes, 459

drogas-tóxicos 281, 445-447

DSM IV (Diagnostic and Statistical

Manual of Mental Disorders) 363

dualismo,

de propriedades 285, 471

mente-corpo 321,

eu-mente e outro-corpo 321

E

ecologia 433

economia, 315

centralizada x livre iniciativa 401

Edelman, G. 195

educação, 441-443, contínua 230

EEG (eletroencefalograma), 98, 182, 261, 470

e sonho 378

ego-sintônico/ego-distônico,

e personalidade 363

emergência, 82, 126

de propriedades e vontade 285

emoção, 122, 249-282

e redescrição lingüística 259-263

em máquinas 260-261,

disfunção emocional 266-281

encefalização 27, 32, 467

endógeno, distúrbio 335

energia, 149, mínima local 172

envelhecimento 55

enzima 49

epistemologia 310

escola 119

espaço amostral 171

especialista, sistema 165

especialização 61

espírito 140, 148-149

esquizofrenia 235, 266

estabilidade estrutural 198

estados,

estáveis x instáveis 414

funcionais x disfuncionais 414

estímulo-resposta 156

estresse 280

estrutura de dados (data structures) 60, 458

ethos,

e hetero-organização 412-419

ética, 249, 424, 432-436, e biologia 217

euforia, humor eufórico 278

evolução, teoria da e consciência 132-133

experimento de pensamento 301

explicação x compreensão 488

F

fabulação 298

fadiga, sintoma 226

falácia de afirmação do conseqüente, 455

falso 150

fase 201

Feigl, H. 461

filogênese 108, 391, 397

filosofia 156

física, 182, clássica 186

fobias, 54, 269, 278-281,

acrofobia 279, agorafobia 279,

claustrofobia 279,

social 279

Fodor, J. 189, 477, 485

folk-psychology 476

fome 127, 129-130

forma 148

formalismo lógico 161

Fourrier, transformação de 472

frenologia, 116, 460

freqüência

e codificação temporal 92-93, 461

e código de barras 92

Freud, S. 130, 347, 465-66

fuga ou luta, resposta de 28, 278

funcionalismo, 471

função 80

função mental, 109-110, 119-123

localização 73, virtual 109,

subdivisão de 122-123

G

Gabor, D. 193

Galileu Galilei 149, 159

Gall, F. 116

gânglios da base 72, 78

gaussiana, distribuição 192

gene 49-50

generalização, e redes neurais 173

genética, predisposição e disf. mental 284

geocentrismo 214, 405

geometria, euclidiana 370, não-euclidiana 370

gestalt, teoria da 231

Gibson, J. 463

globalização 402

Gödel, K. 185, 469

H

Hameroff, S. 186

hardware 88, 153, 159, 316, 470

hebbiana, sinapse 168

hebefrênico, delírio 236

hedonismo 359

Hebb, D. 168, 462, 472

heliocentrismo 406

hemisfério cerebral, 72

esquerdo 229-230, direito 229-230

hereditário,

herança multigênica 287,

e norma posta 373

hermenêutica e psicoterapia 384-385

heurística 176

hierarquia, 61, e mente 334

hipocampo, 72, 128, 295, 344, 465

sincronização com o córtex 202

hipocondria 240, 361

hipótese, 135, científica 301,

que brotam na consciência 242

histeria 347

histograma, 472

holista 126

home-page 443

Hubel, D. 461

humor, 249

disfunções do 266-281,

expansivo, acelerado, exaltado e mania 277

I

IAC inteligência artificial conexionista 168, 177-178, 183, 233, 260

IAS inteligência artificial simbólica 158, 177- 178, 183, 233, 260

identidade (cf. sujeito e indivíduo) 264

ideologia 146, 370, 419

implemento físico 166

impulsividade 56, 228, 273-275

imputabilidade 212, 330, 422-425, 492

incompletude 185 (cf. também completude)

inconsciente 126, 130

independência funcional 174

indivíduo 146 (cf. também sujeito)

indução 160

inferências necessárias, 91,

e argumentos 91, e pensamento 91,

e raciocínio 91

inflação 401

informação, 139, teoria da 193

insônia 56

inspeção direta, e significado 316

instabilidade estrutural 198

integração/decisão,

nos neurônios 40-43

inteligência 67-68, 76, 153, 156, 175-176,

230-231, 305, 315, 319

artificial 156

e avaliação neuropsicológica 232

e formação de comitês 76-77

e educação no desenvolvimento da 233

inteligibilidade, e consciência 325

intenção 141

intencionalidade, 126, 177-179, 467-68

modos intencionais 177

objetos intencionais 177

e proposição e linguagem 178

auto-derivada 182, hetero-derivada 182

interdisciplinaridade 156

internalização 146

Internet 443

interpretação, memória e gabaritos 351

introjeção,

e significado e conteúdos mentais 253

introspecção 252, 323

intuição, 231, 336

teoria mental intuitiva142

matemática 185, e ansiedade 247

e depressão 247

inventividade 350

involuntário 120

irritabilidade 228, 269, 273-275

J

juízo 122, 234

jurisprudência 373

justiça 301

justificação,

e mente 327, e consciência 387-392

K

Kant, I. kantismo biológico, 483

Kahnemann, D. 162

Kuhn, T. 483

L

Laplace, P., céu de 492

Lasch, C. 443

lembranças e vivência biográfica 264

lesão, 135, e disfunção mental 257-259,

concreta 258-259, virtual 258-259

lexicais, estruturas 307

liberdade 134-136 e função cerebral 493

libido, anomalia 226

limiar 41, 85, 92

lineares, sistemas 196

linguagem, 100-101, 108, 120, 122, 131, 134, 307-318, do pensamento 189

lingüística 156, 310

lítio 57, 278

lobo frontal, 72, 229, 241, 284, 335,

e modo automático 284, parietal 72

occipital 72, temporal 72, e delírio místico

238, e ética 364

localizacionismo 116, 458

LTD (long-term-depression) 465

LTP (long-term-potentiation) 465

lógica, 151, paraconsistente 190, probabilística 190, não-monotônicas 190, fuzzy 190

looping 153

M

malha de sincronismo (PLL) 201

mania, 57, 269, distúrbio maníaco 277

mapa cognitivo, 465

máquina, 151, pensante 157

Marr, D. 472

matemática 182

matéria 149

mau humor 276

McCulloch, W. 88, 462

mecanicismo 149

medula 72

MEG (magnetoencefalograma) 182, 261

Meinong, A. 313

membro fantasma, 298, dor no 298

fabulação e 298

memória, 122, 127, 341-353

classificações de tipo 346-348

de curto termo 343, de longo termo 343

de procedimento x declarativa 346-347

de trabalho 131, 174, 344

e código 348-353

e identidade 345

e interpretação 348-353

e navegação 345

e potencial de ação (amplitude do) 342

e traço 342-346

em computadores 166

explícita x implícita 346-347

semântica x episódica 346-347

sintomas de disfunção 226

mensageiros 49-53, 68

mente, 107-108

arcaica 214, nova mente 214

e computador 102-104, 140, 160

e fôrmas cerebrais 352

formas e conteúdos mentais 108, 115, 352

e ordem jurídica 215

e patologia 149

e telecomunicações 108

e valoração 331

objetos mentais 143

processo, conteúdo, função 122, 140

teoria determinista da 201-204

mente-corpo, problema, 461

mercado 411

mesencéfalo 72, 78

metáfora 164

microtúbulos 186

mídia 146

Mill, J. S. 492

mitomania 299

mnêmico 126

moda 146, 370

modelos cerebralistas 174, 179-182 (cf. também DCC e DCQ)

modelos híbridos 188-190

modelos simbolistas 179-182

modem 102-106

modo automático 284, 484

modo voluntário 284, 484

modulação, de ação sináptica 342

modularidade 60

Modus Tollens, 455

monismo,

de essências 285, 471

criptográfico 332

moral 134-136

Morgenstern, O. 162

Mountcastle, V. 461

motivação,

anomalias 225, interesse e atenção 298

motricidade, 122, e mente 326-327

multidisciplinaridade 156

múltipla instanciabilidade 166, 465

mundo, natural 122, cultural 122

mundos possíveis, e significado 312

N

não-lineares, sistemas 196

nanocomputação, nanotecnologia, 459

necessidade 132, 371

neocórtex 65, 229, 284

neologismos, e patologia mental 236

neurociEAncia 156, 288

neuroléptico 56, 278

neurologia, 261, 334

de funções superiores 261

neurônios, 32, 35-44, 71

e conectivos lógicos 84-87, 88-95,

artificiais 88,

e codificação temporal 92-95

virtuais 137

neuropsiquiatria 261

neurotransmissor 46, 71

Newton, I. 149

noradrenalina 71, 239, 280

Norman, D. 233

O

obesidade 129

objetiva, vivência 146

objetivo x subjetivo 377

observável, termo 323

obsessão, 269, 278-281

pensamentos obsessivos 240

doença obsessivo-compulsiva (DOC) 241

Ockham, W. 159

oníricos, conteúdos (cf. sonho)

ontogênese 102, 397

ontologia 310

opinião 218-221, 283, 332

ordem e caos 197

organização, auto194, 409-415 hetero 409-415

oscilações, 83, 93, 110,

e formação de símbolos 181

e relógios de tempo, 477

e portas lógicas, 477

e memória, 477

e consciência, 477

e atenção, 477

osciladores 196-203

OSI, modelo e mente, 461

Oshima, N. 366

ostensão (inspeção direta) 310, 486

ou convencional 89

ou exclusivo 88-90, 167

P

padrões,

reconhecimento de e redes neurais 170

pânico 54, 266, 269, 278-281, 279

parada, da máquina de Turing 153, 185, 475

paradigma 233

paralelo, computação em paralelo 167

parâmetro 196

valor de bifurcação 198

valor ordinário de 198

paranóia, 131, delírio paranóide 236

parapráxis 336 (ato falho)

Parkinson, mal de 53

Pascal, B. 301, 485

pathos, e auto-organização 412-419

patologia, da comunicação 262

cultural 262, mental e caos 203

Penrose, R. 186, 477

pensamento, 122, 150, 156

aceleração do 235

e corroboração 237, e refutação 237

e ruminação 239

pobres e concretos 239

sem consciência 229

seqüencial 233

percepção, 122, 321-338

delirante 246, 314

presumida x redescrita 429

percéptrons 167

personalidade, 122, 355-357, 489

ativo x passivo, sensível x resistente,

imediato x mediato 361, amoral 364-367,

social e axioma coletivo 369-374

classificação de 360-362

distúrbios 55, 363-369

e bem-estar 359

e evitamento de riscos 359

e herança genética 357-360

e liderança 358

e tradicionalismo 359

múltipla 348

perversões 241

PET scan, (tomografia por emissão de pósitrons) 182, 261, 284

Pick, demência de 235

pirronismo, 472

Pitts, W. 88, 462

place-coding 461

planejamento, e hipótese 135

PMD (psicose maníaco-depressiva) 278

poder 301, 332

Poisson, distribuição de 192

ponte 72

Popper, K. 455, 468

Positivismo Lógico 322, 477

potencial,

local 42, 47, 109 de ação 42-43, 47, 86, 92, 109, 199, e oscilações 93

pragmática 164, 310

prazer, 250, desprazer 250

Pribram, K. 469

Prigogine, I. 193

primatas não-humanos 229

princípio de superposição 196

privado, sujeito 138, 323

probabilidade, teoria de 162-163

problemas, solução de 127

processador central 102, computadores 166

processamento, temporal 89, 95, mental 122, 128, cerebral 128

processo abstrato 139

programa, 152

pré-programar 132, atenção e consciência 297, 327

propaganda 146, 370

proposição 150, 162, 175-177, 311-316

propriedade, privada x pública 401

propriedades emergentes 81

prosopagnosia 313

proteína C 458

pseudopensamentos,

e emoção e vontade 259-260

psicanálise 131, 348

psicofarmacologia 115, 459

psicologia 155, 156, 315

psicopata, psicopatia

(cf. personalidade, distúrbios da)

psicose, 55, 234, 266, 383

depressões psicóticas 275, histérica 345, dissociativa 346, circular (cf. PMD)

psicoterapia, 115, 208, 266, 335-336

e hermenêutica 384-385

psiquiatria 164, 219, 261, 334, 355, 363-364

público, sujeito 138, 323 público x privado 377

Q

qualitativo, 197-198, salto 111, 138

quantitativo 197-198

Quine, W. 151

R

raciocínio 75

RAM (random-acccess-memory)

memória volátil do computador 343-344

reabilitação 67, 473

receptor, 46, 48-49, e memória 342

recursão (função recursiva) 161

redes neurais, 89, 95, 167-173, 328-329 treinamento 170, e minimização do erro 170

redescrição valorada, e consciência 201, 328- 330, 338-339, 387-392

redução, (cf. tradução) 181, 201, 285, 323,

horizontal 195,

sindrômica de tipo, 468

de termos 485, de teorias 485

reflexão 304-306, 327

reflexo, ação reflexa 327

refutação, de hipóteses/ teorias 297-298, 301, 455

regras, 156,

conjunto finito de 307, lógicas 88, 95 gramaticais e linguagem 175, inatas 175

regularidade estatística, redes neurais 167-168

relação entre símbolos 199

REM (rapid eyes movement)

fase do sonho de movimento

oculares rápidos 377-379

representação, 76, 119, 121,156, 158, 174,

330, 350, distribuida e consciência 136,

distorcida e consciência 330

repressão, 131, 147, (reprimido primário) 131

responsabilidade, 134, e mente 328

resposta tipo talvez 62

RNM, (ressonância nuclear magnética) RNMf (ressonância nuclear magnética funcional) 182, 261

ruído 182

S

Sagan, C. 455

Santayana, M. 431

satisfação do consumidor, e ciência 405-408

save, comando para gravar informação 344

semântica 131, 162, 164, 309, 474

semiótica 310

sensação 164

sensorialidade,

hipótese-sensorial 299, 306, "sentido

extra" e corroboração de hipóteses 301

sentença, 150, bem construída 176

separabilidade linear 90-91, 167

serial, modelo 167

serotonina 71, 239, 280, 359

Shallice, T. 233

Shannon, C. 193

significado, 156, 308, 332, 486

estabilização dinâmica do 255-263

sim ou não, resposta tipo 109, 113-114

símbolos, 105, 137, 153, 156, 174, 181,199 mentais 59, primitivos 178,

macrossímbolo 190

sinais cerebrais, 59, 141,

e símbolos mentais 199

sinapses, 32, 45-58, 71, alteradas 53-57,

excitatórias 71, 87, inibitórias 71, 87

força da 87, peso de 92, 169-170

sincronização, 94, 104-107, 110, 119, 125, 189

cultural 137

e atenção 295

e circuito tálamo-cortical 96

e dessincronização 96

e formação de símbolos 181

e freqüência 114

e teoria da consciência 388-391

exo102, e endossincronismo 102

sintaxe 131, 164, 309

sintomas e sinais de disfunção mental 224-228

sintomas físicos vagos e disfunção mental 227

sistema,

axiomático social 372

especialista 165, 192

híbrido 188

límbico 73, 75

nervoso central 27, 30, 110

nervoso periférico 110

de produE7ão (production systems) 467

sistema reticular-ascendente 295

sistemas dinâmicos 196-203

teoria geral dos sistemas 195

Slovic, P. 162

sociedade 387

sociologia 315

software 79, 88, 102, 153, 159, 316, 465

sólitons 191

sonho, 122, 299, 377-384, 478

e consciência 377-384

e inconsciente 379-380

e fixação de memórias 384

e redes neurais, 490

sono, anomalias do 224

stress (cf. estresse)

subjetivo, 126, vivência subjetiva142, 146, 256

subsímbolos 172, 467

sujeito, 147 (cf. também indivíduo)

e sonho 378, público x privado 428-432

T

tabela de verdade 85, 88

tálamo, 72, 78, 96, 295

sincronização com o córtex 202

talvez, resposta do tipo 109, 113-114, 119

tecnologia 120

temperatura 231

teoria, científica 301, 370, cortical e geração

de hipóteses e teorias 296-298

terceirização e mente 119-120

termodinâmica, 193, de não-equilíbrio 193

token, 458 identity, reduction, 458, 485

Tópica, Primeira e Segunda, 465-66

topologia 182, 231

tóxicos (cf. drogas-tóxicos) 281

tradição 146

tradução (cf. também redução) 181

transição de fase 69, 136, 231, 243, 308

tronco cerebral, e atenção 295

turbulência 191

Turing, A. 151, 156, 469-70

máquina de 151-152, 158-179, 300, 470

teste de 152

parada (cf. parada da máquina de)

Tversky, A. 162

type, 458 identity, 462

type-reduction, 458

U

universalidade 139, 195

V

validade 151

variáveis 196

verdade, 150, 308, 311-312

valor de verdade 151, pragmática 315

teorias da verdade, 487

verificação, de teorias 301, 455

verossimilhança 313, 318

vetores 169

vida artificial 195

vigília e atenção 295

virtual, (cf. também comissões, comitês, e

departamentos virtuais) e mente 253

visão,

circuito cortical da 108,

artificial 482

vitaminas 272

vivenciado, ciência do 483

voluntário, 120, 201, 284, pseudovoluntário 291

voluntarismo 107

von Bertalanffy, L. 195

von Neumann, J. 161-162

arquitetura von Neumann 161, 166

vontade, 120, 134-136, 283-292

cultural 290, cerebral 290, e redescrição

lingüística 259-263, em máquinas 260-261

determinação cerebral da 285, 426-428

contrariação da, 471

W

wavelets 191

WEB (world wide web) 441

Wiesel, T. 461

winchester 102

Wolfe, T. 451